Branca
A delegacia tinha aquele cheiro de destruição. De término de sonhos, de encerramentos forçados . Entrei ao lado do Cássio com aquela determinação que tinha me tirado da cama, que tinha me colocado no carro, que estava me mantendo de pé agora, mesmo quando as pernas queriam fazer outra coisa.
Eu precisava ver ela.
Precisava olhar para o rosto de Ana Krieger e entender, não perdoar, não fechar, só entender, como alguém que esteve presente no batizado do meu filho, que segurou ele no colo, que me abraçou quando ele nasceu, conseguia ter feito o que fez.
O delegado Souza veio ao nosso encontro antes que eu chegasse ao balcão.
Cumprimentou o Cássio com aquele aperto de mão rápido de quem já trabalhou junto tempo suficiente para dispensar formalidade, e então me olhou com aquela expressão cuidadosa que as pessoas têm quando não sabem bem o que esperar de você.
"Ravelli." Assentiu. "Senhora."
"Minha noiva gostaria de conversar com a senhorita Krieger", o Cássio disse, direto.
Souza respirou fundo pelo nariz.
"Ela está sendo interrogada agora. Não posso interromper o procedimento." Me olhou com cuidado. "Quando a transferência para a cela for autorizada, eu ligo para vocês. Pode levar algumas horas ainda."
Bufei.
"Tudo isso?"
"Senhora Branca, eu entendo, mas..."
"Eu nunca fui nada para ela." As palavras saíram antes que eu pesasse, mas eram verdadeiras e eu não as puxei de volta. "Nunca interferi nos planos dela. Nunca disputei nada com ela. Eu era só a mulher que o Jonathan tinha escolhido, era só a mãe do Pedro, era só..." Parei, sentindo a garganta apertar, e então decidi que não era o momento. "Eu não saio daqui sem olhar na cara daquela mulher."
"Vai ser impossível antes do interrogatório terminar..."
"Não me importo. Tenho todo o tempo do mundo."
Eu me virei, fui até o banco de madeira encostado na parede, e me sentei.
Souza me olhou.
Olhou para o Cássio.
O Cássio olhou para mim por um segundo, e então foi sentar ao meu lado sem dizer uma palavra.
Souza ficou parado por um momento, como se ainda estivesse avaliando se valia a pena insistir, e então soltou o ar e voltou para o corredor.
Ficamos ali, os dois, no banco duro da delegacia, com o barulho do lugar circulando ao redor. Eu fiquei olhando para a frente, as mãos no colo, sentindo o peso de tudo que estava contido dentro de mim naquele momento.
O Cássio pôs a mão sobre a minha, sem dizer nada. Não precisava.
Não sei quanto tempo passou.
O suficiente para o café da máquina do corredor esfriar na mão do Cássio sem que ele bebesse. O suficiente para eu contar os azulejos na parede da frente duas vezes sem perceber que estava fazendo isso.
Foi quando ouvi.
Não eram passos comuns, eram arrastados, pesados, acompanhados por vozes que davam instrução e pelo som inconfundível de alguém que não estava cooperando completamente.
Eu e Cássio nos viramos ao mesmo tempo para ver e então eu o vi.
Jonathan entrou pela porta lateral escoltado por dois homens que eu não reconheci, seguranças, pelo jeito, não policiais, com aquela postura de quem não obedece ordens privadas. Ele estava de pé, mas com aquela instabilidade de quem ainda não recuperou completamente o controle do próprio corpo. Os olhos semicerrados, os movimentos lentos.
Mas ele nos viu.
Eu sei o momento exato em que os olhos dele pararam em mim com uma precisão que atravessou a névoa toda.
Me levantei.
O Cássio se levantou junto, automático, ficando levemente à minha frente. Protetor do jeito dele.
Os policiais se moveram rápido, interceptando os seguranças, assumindo a custódia com aquela eficiência de procedimento. Jonathan foi segurado, os pulsos presos, mas a boca continuava livre.



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