Entrar Via

Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 236

Emily

A garrafa estava quase no fim.

Eu nem lembrava qual era... vinho, talvez, ou aquele uísque barato que o frigobar do hotel oferecia como se fosse alguma coisa. Não importava. O que importava era o entorpecimento que vinha junto, aquela camada fina entre eu e o mundo que ficava cada vez mais difícil de manter.

A televisão estava ligada no volume baixo, mas eu ouvia.

Eu sempre ouvia.

"...ex-promotora Emily Morrow, que em 2019 foi eleita uma das juristas mais promissoras do estado...Acaba de ser afastada do cargo por um escândalo de corrupção."

Eu ri, e o som saiu torto, sem graça.

A foto que apareceu na tela era antiga, cabelo arrumado, terno, aquele sorriso que eu usava como ferramenta. Eu me lembrava do dia daquela foto. Lembrava do cheiro do café que tinha tomado antes, das pessoas que tinham me parabenizado no corredor, da sensação de que eu estava exatamente onde devia estar.

Agora eu estava num quarto de hotel com as cortinas fechadas às três da tarde, rodeada de garrafas e com o celular na mão como se ele fosse explodir.

André não ia atender. Não mais.

Não depois de descobrir tudo.

Eu sabia disso. Eu sabia quando ele desligou, sabia pelo tom da voz dele, aquela frieza que era pior do que gritar, mas eu tinha ligado mesmo assim porque as opções estavam acabando e o desespero não escolhe dignidade.

Coloquei a garrafa no chão e fiquei olhando pro teto.

Ele rastejaria.

O pensamento chegou devagar, mas chegou com força.

Eu podia fazer isso. Eu tinha feito coisas mais difíceis, tinha construído casos do zero, tinha derrubado gente muito mais preparada do que André. Ele achava que estava seguro agora, achava que tinha ganho, que podia me desligar como se eu fosse uma chamada indesejada.

O menino.

Eu poderia pedir a guarda. Entrar com um processo, fazer barulho, arrastar o nome dele na lama por meses até ele não aguentar mais. Podia transformar aquela criança num instrumento, assim como ele tinha tentado me fazer sentir que eu era a vilã da história.

"Ah mas na prática, eu teria que cuidar dele de verdade." virei mais um gole da bebida.

Juízo. Audiências. Assistente social entrando na minha vida, vasculhando tudo. E no final, um menino cego, dependente, que precisaria de atenção constante, de médico, de paciência, de uma estrutura que eu não tinha e nunca quis ter.

"Deixa pra lá. Não preciso de mais esse problema. Deixá-lo no orfanato foi a melhor coisa que eu fiz."

Deixar aquela criança foi o mais sensato. Eu não era feita pra isso, nunca fui, e fingir o contrário teria sido pior pra todo mundo. Ele tinha encontrado o pai, tinha encontrado essa mulher que aparentemente era santa, então estava resolvido.

Eu não precisava de culpa.

236. Minha queda 1

236. Minha queda 2

Verify captcha to read the content.VERIFYCAPTCHA_LABEL

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz