André
O carro desacelera em frente à casa e, pela primeira vez desde que saímos do orfanato, eu sinto um tipo diferente de nervosismo. Não é medo, não é dúvida... é expectativa. Olho para o Felipe ao meu lado, a mão dele ainda segura na minha, firme, como se aquele contato fosse a única certeza que ele tem nesse momento.
"A gente chegou", digo baixo, mais pra tranquilizá-lo do que pra informar.
Ele não responde. Apenas aperta levemente meus dedos, e eu sinto aquilo direto no peito.
Laís desce primeiro, contorna o carro e abre a porta com cuidado, a voz suave como sempre. "Tem um pequeno degrau", ela avisa, guiando ele com paciência, deixando que ele sinta o espaço, o chão, cada detalhe no tempo dele. Eu saio logo depois, fico do outro lado, atento, acompanhando cada movimento.
A porta da casa se abre antes mesmo de chegarmos até ela.
E então tudo acontece ao mesmo tempo.
"Achei que vocês iam demorar mais!"
Aelyn é a primeira a aparecer, praticamente correndo, mas ela desacelera no último segundo, como se tivesse lembrado que precisa ter cuidado. Mesmo assim, a energia dela preenche tudo, e eu sinto quando Felipe endurece levemente ao meu lado.
"Oi", ela diz, animada, mas se contendo. "Eu sou a Aelyn. Sou sua prima!"
Ele fica em silêncio por um instante, processando.
"Oi…"
Branca aparece logo atrás, os olhos já marejados, e eu vejo o exato momento em que ela leva a mão à boca. Ela se aproxima devagar, diferente da filha, respeitando o espaço que ele precisa.
"Oi, meu amor." A voz dela sai embargada. "Eu sou a Branca. Sua tia."
Felipe aperta minha mão de novo.
Me abaixo um pouco ao lado dele, encosto de leve no ombro, ancorando.
"Está tudo bem", murmuro.
Vânia vem logo depois, mais contida, mas não menos emocionada. Quando ela chega perto, leva a mão ao rosto dele com um cuidado absurdo, como se estivesse tocando algo precioso demais pra ser real.
"Meu neto…" A voz quebra no meio. "Eu sinto tanto por todo esse tempo."
Felipe fica imóvel.
"Mas a gente vai compensar", ela continua, a voz firme agora. "Cada dia."
Eu sinto o peso daquelas palavras. Mas antes que ele possa reagir, Cássio se aproxima junto com a Branca, e fica ali, tranquilo, sem pressionar.
"Você ganhou uma família inteira de uma vez só." Ele sorri de lado. "Eu sou o Cássio. Sou seu tio, pai da Aelyn e noivo da Branca."
Felipe respira fundo, gente demais, vozes demais, sentimentos demais e eu percebo quando o corpo dele começa a ficar mais rígido.
É demais.
"Laís", eu chamo baixo.
Ela já está vindo.
"Ei, calma." Ela se abaixa um pouco na frente dele, a voz com aquela firmeza suave que ela tem. "Tem muita gente, né?"
Ele solta o ar devagar.
"Um pouco…"


VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz