André
O silêncio que se forma depois daquelas palavras não é apenas pesado… é sufocante. Eu ainda estou tentando entender se aquilo é real, se de fato saiu da boca dela, se existe alguma lógica que explique o que acabei de ouvir, mas quanto mais eu encaro o rosto da Emily, mais eu percebo que não há erro ali. Não há exagero. Não há manipulação no sentido comum.
Há verdade.
E isso torna tudo pior.
Eu dou um passo à frente antes mesmo de perceber, o corpo se movendo sozinho, puxado por algo que não consigo controlar.
"Fala que é mentira."
Minha voz sai mais alta do que deveria, mais dura do que eu lembrava ser capaz naquele estado.
"Fala que você não deu o meu filho pra adoção sem eu saber."
O olhar dela vacila e eu entendo sua resposta mesmo sem ela dizer nada. Mas eu não aceito.
"Fala!"
O grito explode, ecoando pela sala, quebrando qualquer tentativa de controle que eu ainda tinha.
Ela começa a chorar, de verdade.
Sem pose, sem cálculo aparente, os olhos enchendo rápido, a respiração descompassando como se finalmente tivesse perdido o chão que tentou manter até ali.
"Eu achei que era o melhor", ela diz, a voz falhando. "A gente não tinha mais nada… você queria sua carreira, eu queria a minha…"
Eu passo a mão pelo cabelo, puxando com força, sentindo o corpo inteiro vibrar de uma raiva que não cabe dentro de mim.
"Então você decidiu sozinha por nós dois?"
Ela balança a cabeça, desesperada.
"Eu achei que ele teria uma vida melhor… com uma família que quisesse ele, que pudesse amar ele do jeito certo… do jeito que a gente não conseguiria."
Algo dentro de mim explode.
"Como você foi capaz disso?"
Minha voz treme agora, não de fraqueza, mas de intensidade.
"Como você pôde fazer isso sem me consultar? Você nunca teve o direito de decidir isso sozinha!"
Dou mais um passo, ignorando completamente a dor no corpo.
"Eu nunca teria permitido. Nunca teria deixado você entregar o meu filho como se fosse… nada!"
Ela chora mais forte.
"Eu achei que estava fazendo o melhor!"
"Pra quem, Emily? Pra quem?!"
O silêncio pesa entre a gente por um segundo.
"Você é pior do que eu imaginava", continuo, a voz mais baixa agora, mas muito mais cortante. "Mais cruel do que eu pensei que alguém poderia ser."
Eu rio, mas não há humor nenhum ali.
"Como é que eu pude ter alguma coisa com você? Como eu pude te amar… te querer… confiar em você?"
Ela dá um passo na minha direção, as mãos tremendo.
"André, me perdoa… eu achei que estava fazendo o melhor pra nós… eu não queria que você descobrisse assim…"
"Você não queria que eu soubesse."
Eu corto, seco. O silêncio que se segue é pesado.
"Você nunca ia me contar, não é?"
Ela não responde. E isso responde tudo.
"Se você não precisasse de mim agora…", continuo, a voz ficando mais baixa, mais controlada, mais perigosa, "...eu nunca saberia que tenho um filho perdido por aí."
As palavras ecoam dentro de mim.
Filho.
Meu filho.
E eu não sei onde ele está. Não sei quem ele é. Não sei nada.
Ela continua chorando, mas eu não consigo sentir nada por isso. Não há espaço. Não há empatia. Só um vazio enorme misturado com uma raiva que cresce cada vez mais.
"Isso não é perdão que você está pedindo", digo, encarando-a. "Isso é conveniência."


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