Emily
Faz anos desde a última vez que estive frente a frente com Ana Krieger, mas, ainda assim, no instante em que cruzo aquela porta, tenho a sensação incômoda de que nada mudou. O ambiente é exatamente como eu imaginava: organizado demais, silencioso demais, como se até o ar ali fosse controlado por ela. E, no centro de tudo, está Ana, sentada atrás da mesa como se aquele lugar sempre tivesse pertencido a ela.
Eu caminho na direção dela sem hesitar, mesmo com a tensão apertando meu peito mais do que gostaria de admitir. De todas as pessoas daquela família, ela sempre foi a única com algum senso, a única que não se deixava levar por impulsos ou emoções desnecessárias. Se alguém pode me ajudar a sair disso… é ela.
"Emily… quanto tempo", ela diz, com um sorriso discreto, daqueles que não revelam absolutamente nada. "Sente-se, por favor."
Eu faço isso, mantendo a postura firme, mesmo que por dentro tudo esteja longe de estar no lugar.
"Muito tempo mesmo", respondo, cruzando as pernas com cuidado. "Estou de passagem pela cidade e acabei sabendo que você também estava por aqui."
Ela inclina levemente a cabeça, como se aquilo fosse apenas uma coincidência pouco relevante.
"Pois é. Eu prefiro a matriz, em Nova York. Combina mais comigo. Mas meu avô decidiu investir aqui assim que meu irmão descobriu o paradeiro da Branca, então estamos… por mais tempo do que o previsto."
A forma como ela fala o nome dela é neutra demais, quase como se estivesse falando de alguém que não importa. Eu observo isso, registrando, tentando entender até onde posso ir.
"Deve ser complicado", digo, medindo as palavras. "Largar sua vida para atender às expectativas dele."
Ela sorri de leve, sem se ofender, sem se justificar.
"É apenas o fardo da família", responde com naturalidade. "Meu avô sempre foi um pai para mim. Depois que o meu pai e o pai da Branca morreram naquele acidente, ele dedicou a vida a nós. Eu só… retribuo."
Eu assinto, como se entendesse completamente, embora saiba que há muito mais ali do que ela escolhe mostrar.
Ela se inclina um pouco para frente então, os olhos finalmente mais atentos.
"Mas eu duvido que você tenha vindo até aqui para falar sobre isso. No que posso ajudá-la?"
É direta. Como sempre.
Eu respiro fundo, organizando a forma como vou dizer aquilo, porque preciso da ajuda dela… mas não posso parecer fraca demais.
"Nem sei como começar", digo, deixando escapar uma leve hesitação calculada. "Você sabe que… eu e o André… tivemos algumas situações no passado."
Ela não reage. Não pergunta. Só observa.
"Ele seguiu em frente", continuo, com cuidado. "Mas isso não muda o fato de que existe algo ali."
Ana me corta antes que eu avance mais.
"Você sabe que o André está casado, não sabe?"
A firmeza da fala me faz travar por um segundo, mas eu sustento.
"Sei", respondo. "Mas isso não impede nada. Ele pode até estar com ela… mas isso não significa que não me ame."
O silêncio que se segue é curto.
E perigoso.
Ela sorri.
Não com humor.
Mas com algo que me faz apertar os dedos sobre a perna sem perceber.
"Você não veio aqui pedir ajuda com isso", ela diz, com calma.
Eu respiro fundo, porque ela está certa.
"Eu procurei o Jonathan para me ajudar", admito. "Mas… ele está diferente."
Ela inclina levemente a cabeça.
"Meu irmão está fora de controle", responde, como se estivesse comentando sobre o clima. "E, em breve, não estará mais disponível para esse tipo de… iniciativa."
Eu franzo o cenho.
"O que você quer dizer com isso?"
"Que ele será internado", diz, simples. "E que se aproximar dele agora não é prudente."

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