Cássio
Deixar a Aelyn na escola deveria ser uma tarefa simples, rotineira, quase automática, mas hoje não é. Eu fico alguns segundos a mais do que o normal observando ela entrar pelo portão, a mochila balançando nas costas e o cabelo preso que a Branca arrumou com tanto cuidado. Ela se vira uma última vez, acena com aquele sorriso leve, e só então eu sinto que posso respirar um pouco melhor.
Mesmo assim… não completamente.
Tem algo errado.
Não é concreto, não é visível, mas está ali, no fundo, como um instinto que se recusa a ficar em silêncio.
Mesmo com os seguranças ali, algo está me incomodando.
Eu só entro no carro quando ela desaparece no corredor interno da escola, e, ainda assim, olho uma última vez antes de fechar a porta. Só então sigo para o fórum, tentando empurrar aquela sensação para o fundo da mente, onde não atrapalhe minhas decisões.
Dirijo rápido para o lugar que um dia me fazia vibrar. Hoje, é só onde eu cumpro minhas obrigações. Porque paz, de verdade… eu só encontro quando estou com a minha família.
O prédio parece o mesmo de sempre.
Frio. Formal. Cheio de gente que finge muito bem.
Assim que entro, sou recebido com acenos, cumprimentos e algumas palavras que, em qualquer outro momento, poderiam soar como apoio. Hoje, não passam de ruído.
"Bom te ver de volta, doutor."
"Sentimos sua falta."
"Finalmente tudo esclarecido, não é?"
Eu assinto, cumprimento, sigo andando, mantendo a postura firme, mas por dentro… nada disso me atinge. São os mesmos que desapareceram quando a denúncia surgiu, os mesmos que escolheram silêncio quando seria mais fácil virar as costas. Agora que tudo está resolvido, aparecem com sorrisos e apertos de mão como se nunca tivessem duvidado.
Eu não acredito. Apenas finjo muito bem.
Minha sala me recebe com o que eu já esperava: uma pilha de processos organizada sobre a mesa, como se estivesse esperando o momento certo para me lembrar exatamente por que eu não senti falta de estar aqui.
Eu fecho a porta atrás de mim, soltando um suspiro baixo antes de me aproximar.
"Agora me lembro por que não senti falta disso."
A frase escapa quase como um pensamento em voz alta enquanto puxo a cadeira e me sento, abrindo o primeiro processo. Os olhos percorrem as páginas automaticamente, analisando, conectando, retomando o ritmo que nunca foi exatamente perdido, só interrompido.
Minutos passam assim.
Talvez mais.
Até que uma batida leve na porta me faz erguer o olhar.
"Entra."
Um estagiário aparece, visivelmente nervoso, segurando uma pasta nova.
"Doutor, isso acabou de chegar… Pediram para o senhor analisar com prioridade."
Eu pego a pasta sem comentar, e ele sai rápido demais, como se tivesse medo de ficar mais tempo do que o necessário.
Assim que abro, tudo perde o foco. É o caso da Glória.
O nome já traz um peso que eu não precisava revisitar agora, mas ainda assim continuo. As páginas mostram o que eu já sabia… e mais do que eu gostaria de ver de novo. Fotos, laudos, descrições técnicas que tentam transformar brutalidade em linguagem jurídica, mas que não conseguem esconder o que realmente aconteceu.
Meu estômago revira.
Eu passo a mão no rosto, fechando os olhos por um segundo antes de continuar. André já tinha feito a parte mais difícil, já tinha conseguido provar que não tinha qualquer ligação com aquilo, mas ver ali, organizado, detalhado… é outra coisa.
É real de novo.
E é pior.
Eu avanço pelas páginas, analisando as provas, os nomes, as possíveis conexões, cada detalhe sendo registrado com atenção… até perceber o que não está ali.
Jonathan. Novamente ele conseguiu se safar. Eu solto um bufo baixo, jogando a pasta levemente contra a mesa.
"Claro."
Ele sempre encontra um jeito. Sempre escapa. Sempre se esconde atrás de alguém, de alguma brecha, de alguma falha. Mas não por muito mais tempo.
A batida na porta vem antes que eu consiga retomar o raciocínio.
"Entra."
A porta se abre, e, quando vejo quem entra, meu corpo inteiro fica em alerta.
Emily.
Ela está diferente. O rosto abatido, o olhar mais tenso, mas ainda tentando sustentar aquela postura que eu conheço bem demais para saber que é fachada.
Eu fecho o processo devagar, apoiando as mãos sobre a mesa enquanto a encaro.
"O que você está fazendo aqui?"
Ela se aproxima, sem hesitar.
"Cássio, sei que não quer me ver, mas é importante. Eu preciso ver o André."
Minha expressão não muda.
"Ele não está aqui, como bem sabe."
"Eu sei", ela responde rápido. "Ele está na sua casa. E eu não consigo chegar até ele sem você."
Eu cruzo os braços, apoiando as costas na cadeira.

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