Ana
O relatório já estava aberto na minha mesa quando entrei na sala, como tudo que realmente importa na minha vida sempre está: pronto, organizado, esperando apenas que eu tome uma decisão. Caminho até a cadeira sem pressa, retirando o casaco enquanto meus olhos já percorrem as primeiras linhas, absorvendo cada informação com a atenção que poucos são capazes de sustentar por mais de alguns segundos.
Jonathan não decepciona. Ou talvez decepcione exatamente como eu esperava.
Me apoio no encosto, cruzando as pernas com elegância enquanto continuo a leitura, cada detalhe se encaixando com precisão irritante. Contatos feitos, movimentações suspeitas, reservas discretas… e então, lá está. O plano inteiro praticamente desenhado, como se ele realmente acreditasse que conseguiria fazer aquilo sem que ninguém percebesse.
Um novo sequestro da ex-mulher.
"Você é tão previsível, irmãozinho."
Continuo lendo e vejo o seu plano. Uma saída do país em um jatinho particular, como se estivesse fugindo com algo que ainda lhe pertencesse.
Um riso baixo escapa antes que eu possa conter.
"Ridiculamente previsível."
As palavras saem quase como um suspiro, não de surpresa, mas de tédio. Fecho o relatório com um movimento calmo, já sabendo exatamente o que precisa ser feito antes mesmo de terminar de pensar sobre isso.
Aperto o botão da minha assistente e, em segundos, ela está batendo a minha porta.
"Entre."
Anita entra com o tablet já em mãos, pronta.
"Pois não, senhora."
"Corte imediatamente todas as linhas de crédito do Jonathan", digo, direta, sem precisar levantar o tom. "Ele não está autorizado a usar nenhum recurso da empresa."
Ela começa a anotar na mesma hora.
"Cancele qualquer agendamento de uso de veículos, aeronaves ou propriedades vinculadas ao nome dele. E a partir de agora, qualquer tentativa de locação ou movimentação financeira deve passar por mim."
"Sim, senhorita."
"Sem exceções. Se ele vier tirar satisfação, mande ele vir conversar comigo. A partir de agora tudo que ele fizer, eu deverei ser informada."
Ela confirma novamente, sem questionar, e sai da sala com a mesma eficiência com que entrou. Eu espero o silêncio se instalar por alguns segundos, apenas o suficiente para reorganizar mentalmente as próximas etapas, porque cortar os recursos dele resolve uma parte do problema.
Mas não o problema.
Pego o telefone sem hesitar, discando um número que não costuma aparecer em registros oficiais, encostando no braço da cadeira enquanto aguardo.
"Preciso que você vá até a casa do meu irmão."
A resposta do outro lado vem rápida, atenta.
"Algum detalhe específico?"
"Inventa qualquer coisa plausível. Prestador de serviço, manutenção… não importa. Só precisa entrar." Suspiro, tendo que dizer coisas tão básicas, a alguém que deveria ser expert no assunto.

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