Laís
Eu nunca vi tanto sangue.
Mesmo depois de tudo o que já vivi dentro de fóruns, delegacias, corredores de hospital, salas de audiências, nada me preparou para a visão do André caindo na minha frente com o ombro ensanguentado porque a bala que era para mim atravessou primeiro o corpo dele.
Tudo depois disso acontece rápido demais e lento demais ao mesmo tempo.
Alguém chama a ambulância.
Alguém grita por socorro.
Alguém corre atrás do homem.
E eu só consigo me ajoelhar no chão daquela sala, com as mãos sujas de sangue, pressionando o ferimento dele enquanto repito o nome dele como uma oração desesperada, como se manter meus olhos nos olhos dele fosse o suficiente para impedir o pior.
"Olha pra mim… André, olha pra mim…"
Eu nem sei se estou chorando ou gritando. Talvez os dois.
Talvez eu esteja desmoronando sem perceber.
Quando os paramédicos chegam, eu me afasto só porque me obrigam. Vejo abrirem espaço, vejo as mãos rápidas, os equipamentos, ouço palavras técnicas que entram por um ouvido e saem pelo outro, porque nenhuma delas importa mais do que uma só: ele está respirando?
É tudo o que eu quero saber.
E ninguém me responde direito.
No caminho até o hospital, eu vou na ambulância com ele. Não sei quem pegou minha bolsa. Não sei quem avisou alguém. Não sei quem ficou no escritório resolvendo a cena do crime. Nada disso importa. Só importa o som do monitor, o movimento do peito dele, a equipe tentando estabilizá-lo, e eu sentada num canto minúsculo, trêmula, com as mãos cobertas do sangue do homem que se jogou na frente de uma bala por minha causa.
Era para ser eu.
Essa frase não sai da minha cabeça.
Era para ser eu.
Quando chegamos ao hospital, levam André direto para o centro cirúrgico. Um médico me faz perguntas. Uma enfermeira tenta me sentar. Alguém limpa minhas mãos. Outra pessoa pergunta se fui atingida. Outra quer saber meu nome.
Laís.
Meu nome é Laís.
Mas por alguns minutos eu quase esqueço disso.
Só sei responder uma coisa:
"O homem que entrou comigo. Eu preciso saber como ele está."
Eles dizem que estão fazendo o possível.
Essa frase devia ser proibida em hospital.
Eu estou sentada na cadeira da recepção da emergência quando vejo a porta abrir de novo e Branca entrar praticamente correndo, seguida pelo Cássio, por dois seguranças e, alguns passos atrás, Tamara com a Aelyn no colo. Não, não. Aelyn não está ali. Meu cérebro bagunçado tenta entender. Não. Tamara veio, mas sem a menina. Graças a Deus.
Branca me vê.
E tudo o que eu estava segurando se rompe.
Eu me levanto tão rápido que quase tropeço.
Ela corre até mim.
"Cadê ele? Onde está o André? O que aconteceu?" A voz dela já vem quebrada, desesperada, e eu não consigo nem organizar uma resposta decente antes de me jogar nos braços dela.
"Ele me salvou."
As palavras saem afogadas em choro.
"Branca… ele se jogou na minha frente."
Sinto o corpo dela endurecer.
"Era para ser eu", continuo, soluçando, mal conseguindo respirar direito. "A arma estava apontada para mim. Era para ser eu."
Cássio chega perto no mesmo instante, segurando os ombros da noiva e tentando manter alguma ordem naquele caos.
"Quem foi?", ele pergunta.
Eu balanço a cabeça, tentando limpar o rosto sem sucesso.
"Um homem do Jonathan. Foi o que o André dissem eu não o conheço. Mas tem câmeras na sala de reunião..."
A mandíbula dele trava.
Branca segura meu rosto entre as mãos, me obrigando a olhar para ela.
"Você está machucada?"
Eu nego.
"Não. Ele…" Minha voz falha de novo. "Ele pulou na frente."
Os olhos dela se enchem de água na mesma hora.
Atrás deles, os seguranças já falam com a recepção, tentam puxar imagens, nomes, horários, qualquer detalhe que ajude a reconstruir o ataque. O hospital inteiro parece ter ficado pequeno demais de repente. Gente entrando e saindo. Enfermeiras passando rápido. Macas cruzando o corredor. Um telefone tocando ao longe. O ar frio demais.
E nenhuma informação.
Nenhuma.
Minutos depois, vejo outra figura surgindo pelo corredor com a pressa desajeitada de quem correu mais do que o próprio corpo aguenta.


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