André
A primeira coisa que sinto é dor.
Não aquela dor aguda, explosiva, do momento do tiro. Essa eu lembro bem demais. Essa ainda mora em algum canto da minha memória como um clarão, um impacto seco. Agora é diferente. É uma dor pesada, latejante, espalhada pelo ombro e pelo peito, como se meu corpo inteiro estivesse pagando a conta do que aconteceu.
A segunda coisa que sinto é o cheiro de hospital.
Antisséptico. Frio. Limpo demais.
Abro os olhos devagar, a visão ainda turva, e demoro alguns segundos para entender onde estou. O teto branco. O som contínuo dos aparelhos. A luz baixa. O peso estranho no braço. Minha garganta seca.
Então tudo volta. A sala de reunião. A porta abrindo. A arma.
Laís.
Meu corpo tenta se mover antes mesmo que a cabeça acompanhe, mas a dor me trava no mesmo instante. Solto um ar pesado pelo nariz e viro o rosto devagar, procurando.
Não é a Laís que encontro.
É a minha mãe.
Sentada numa poltrona ao lado da cama, mãos cruzadas no colo, me olhando atenta, como se estivesse esperando o exato momento em que eu acordasse para assumir o controle da cena.
"Meu filho."
A voz dela muda na mesma hora, adoçada, úmida, carregada daquela emoção que nela sempre vem misturada com possessividade.
"Você acordou. Graças a Deus." Ela se levanta depressa e vem para perto, tocando meu braço com cuidado excessivo. "Eu fiquei aqui o tempo todo. O tempo todo. Você quase me matou de susto."
Minha testa franze automaticamente. Minha garganta arde quando tento falar, mas ainda assim consigo.
"Cadê a Laís?"
Minha mãe alisa minha mão como se eu não tivesse dito nada.
"Você não precisa se preocupar com nada agora. O médico disse que foi um milagre, André. Um milagre. Se essa bala pega um pouco mais..."
"Onde está a Laís?" Repito, mais firme.
Ela para por um instante.
Tempo suficiente para eu saber que ouviu. E que está escolhendo não responder.
"Você precisa se poupar." A voz dela vem num tom de quem acha que ainda manda em mim. "Nada de se exaltar, nada de ficar nervoso. Eu estou cuidando de tudo."
Eu viro um pouco mais o rosto para encará-la, ignorando a pontada horrível que atravessa meu ombro.
"Onde." Minha voz sai rouca, mas dura. "Está. A Laís."
Dessa vez ela suspira, contrariada, como se eu fosse a parte difícil da situação.
"Eu a mandei embora."
O mundo para por um segundo.
"O quê?"
Ela ergue o queixo, já entrando naquele tom moralista que eu conheço desde criança.
"Eu mandei embora, sim. E fiz muito bem." A expressão dela endurece. "Você está aqui por causa dela, André. Por causa dessa mulher. Desde que ela entrou na sua vida, tudo o que veio junto foi problema, confusão, risco..."
Meu sangue ferve tão rápido que quase me faz esquecer a dor.
"Você ficou maluca?" Minha voz sai mais alta, mais agressiva do que o meu corpo devia permitir. "Ficou louca?" Ela se assusta, mas insiste.
"Eu estou tentando abrir seus olhos. Você levou um tiro por causa dela. Um tiro, André! E mesmo assim parece que ninguém aqui está enxergando o óbvio."
Minha respiração encurta. A máquina ao meu lado acelera o ritmo dos sons.
"Eu não te quero mais perto dela", minha mãe continua, impiedosa. "Só trouxe desgraça pra sua vida. E eu não vou assistir meu filho destruir tudo por uma mulher que..."
Aperto o botão da enfermeira com força.
Minha mãe se cala, surpresa, e menos de um minuto depois a porta se abre e uma enfermeira entra apressada.
"Senhor Bayron, está tudo bem?"
"Não." Minha voz vem seca. "Tira essa mulher do meu quarto agora."
A enfermeira pisca, confusa. Minha mãe leva a mão ao peito, ofendida.
"André!"
Eu aponto para a porta com a mão que consigo mover.
"Eu quero a minha esposa. Manda chamar a minha esposa, por favor."
O silêncio no quarto fica pesado.
Minha mãe arregala os olhos como se eu tivesse acabado de ofendê-la da pior forma possível.
"Você não pode falar assim comigo. Eu sou sua mãe."
"Então começa a agir como uma."
A frase sai cortando.
A enfermeira dá um passo para trás, claramente sem saber onde enfiar a cara, mas eu não me importo. Não agora.
"Você está destruindo o meu casamento", digo, cada palavra mais dura que a anterior. "Fora daqui. Agora."
"André, você está alterado..."
"Eu não quero mais você no meu quarto." Minha voz sobe de vez. "Chamem a minha irmã. A Branca vai saber onde a Laís está."
Minha mãe fica vermelha de raiva. Como se não conseguisse conceber que eu realmente esteja escolhendo outra pessoa antes dela.

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