Cássio
Eu fico parado no escritório por alguns segundos depois que a Branca sai.
Talvez mais do que alguns.
Tempo suficiente para o silêncio começar a pesar de um jeito estranho, como se a discussão ainda estivesse ali, ecoando nas paredes, nas pastas sobre a mesa, no ar que eu ainda tento puxar de forma regular sem conseguir.
Eu passo a mão no rosto devagar, fechando os olhos por um instante.
Não era para ter acontecido daquele jeito.
Na minha cabeça, eu estava fazendo a coisa certa. Estava agindo. Protegendo. Assumindo a linha de frente para que ela não precisasse carregar tudo sozinha de novo. Era isso que homens fazem quando amam, não era? Tomam a frente. Blindam. Resolvem. Impedem que o pior aconteça.
Então por que diabos ela parecia tão ferida?
Por que me olhou como se eu tivesse arrancado algo dela?
A resposta veio tão rápido que me assustou.
Porque talvez eu tenha arrancado mesmo. Não a liberdade. Não a voz. Nunca de propósito. Mas o controle.
E eu conheço bem demais o tipo de mulher que ela precisou se tornar para continuar viva. Branca passou tempo demais segurando a própria vida com as duas mãos, apertando firme, sem poder confiar em ninguém, sem poder cair, sem poder esperar que alguém viesse salvá-la. Gente assim não entrega as rédeas de uma hora para outra. Nem por amor. Nem por segurança.
Talvez principalmente não por segurança.
A porta do escritório se abre de novo, e André entra com a expressão cautelosa de quem não sabe se está chegando cedo ou tarde demais.
"Está tudo bem?"
Eu solto uma risada curta, amarga.
"Não."
Ele fecha a porta atrás de si e se apoia no batente, me observando por alguns segundos antes de se aproximar.
"O que aconteceu?"
"Eu e sua irmã nos desentendemos."
A frase sai mais pesada do que eu gostaria. Passo a mão pela nuca, irritado comigo mesmo por ter deixado aquilo sair do controle tão rápido. "Achei que ela fosse entender que eu só estava tentando proteger todo mundo. Mas ela..." paro por um segundo, buscando uma palavra que não a diminua, "ela ficou brava. Muito brava."
André me encara com um tipo de compreensão cansada, como se já esperasse exatamente esse desfecho no momento em que me viu levando as coisas para frente daquele jeito.
"Cássio", ele começa, se sentando à minha frente, "a Branca passou tempo demais cuidando de si mesma. Tempo demais tendo que sobreviver sozinha. Ela não sabe mais o que é ser cuidada."
Eu abaixo o olhar para o bloco de anotações ainda aberto sobre a mesa. Toda a nossa estratégia, tão sólida há meia hora, agora parece um pouco menos eficiente diante de uma coisa que não estava no papel.
"Eu sei." E sei mesmo.
Talvez o problema seja justamente esse. Eu sei, mas não aceitei no ritmo dela. Quis que ela enxergasse minha proteção como amor antes de sentir nela a ameaça do controle. E a vida ensinou a Branca a desconfiar primeiro.
"Dá tempo a ela", André diz, mais baixo. "Ela vai entender."
Eu assinto, mas a verdade é que não quero dar tempo.
Quero levantar agora, ir até onde ela estiver, puxá-la para perto e dizer que não estou tentando mandá-la sentar no banco de trás da própria vida. Que estou só tentando evitar que ela seja atropelada de novo enquanto olha para o retrovisor. Quero explicar que, quando assumi o controle da situação, não foi porque a acho fraca. Foi justamente porque sei o quanto ela já foi forte demais por tempo demais.
"Não quero deixar isso assim." Minha voz sai baixa, e minha mente tenta examinar o todo.
André passa a mão no queixo, já entendendo para onde minha cabeça foi.
"Cássio..."
"Eu vou falar com ela."
Ele suspira.
"Acho melhor esperar."
Eu balanço a cabeça imediatamente.
"Não." Me levanto antes mesmo de terminar a frase. "Eu preciso resolver isso agora. Não posso deixar a gente ficar desse jeito."
André me observa por um instante, provavelmente medindo o quanto vale insistir. No fim, desiste.
Eu saio do escritório e vou direto para o quarto, já montando na cabeça as palavras certas, tentando desmontar a rigidez do meu tom anterior, encontrar um jeito de pedir desculpas sem recuar daquilo que ainda considero necessário.


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