Branca
A resposta vem imediata. E é justamente isso que me atravessa como uma faca.
"Não faz isso."
Ele franze a testa.
"Fazer o quê?"
"Decidir por mim." Dou um passo à frente, sentindo a raiva crescer junto com o medo. "Resolver tudo sem me dizer. Mudar a rotina da casa. Mexer com a segurança da Aelyn. Traçar planos com o meu irmão. E me deixar dormindo como se eu fosse…"
A palavra trava. Como se eu fosse o quê? Fraca? Instável? Incapaz?
"Como se eu fosse um problema que você precisa administrar", termino, mais baixo, mas ainda pior.
O olhar dele pesa sobre mim.
"Não foi isso que eu fiz."
"Foi exatamente isso."
"Branca..."
A voz dele endurece um pouco.
"Não."
Eu balanço a cabeça.
"Você disse que tinha um plano. Disse para eu confiar em você. E eu confiei. Mas confiar em você não significa entregar o volante da minha vida sem nem saber para onde estamos indo."
Ele me encara em silêncio por um segundo, e percebo a exata hora em que a paciência dele começa a rachar.
"Você queria o quê? Que eu esperasse?"
A pergunta vem baixa, mas carregada.
"Que eu ficasse sentado vendo você desmoronar enquanto o Jonathan, o avô e sabe-se lá quem mais se organizam lá fora para te pegar?"
"Eu queria participar!"
Minha voz sobe.
A dele não.
E isso me irrita ainda mais.
"Você vai participar."
"Quando? Depois que estiver tudo decidido?"
"Depois que eu tiver certeza de que é seguro."
Eu fico imóvel, só olhando para ele.
Porque agora está dito.
Agora está claro.
"Seguro para quem?"
Ele passa a língua pelos lábios, tentando se conter.
"Não começa."
"Seguro para quem, Cássio?"
Minha voz falha, mas não recua.
"Para mim? Ou para você continuar no controle?"
O silêncio pesa de um jeito feio.
Ele se aproxima devagar, e não há agressividade no gesto. Só firmeza. Aquela firmeza irritante, masculina, protetora, decidida… que em outro momento me faria sentir amada.
Agora me faz sentir encurralada.
"Eu estou tentando manter você viva."
As palavras saem baixas.
Cruas.


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