Branca
Eu acordo sozinha. Na verdade, nem sei em que momento daquela tarde eu peguei no sono.
A primeira coisa que sinto é o lado vazio da cama e, por um segundo, meu coração tropeça. Ainda estou meio perdida entre o peso da conversa com a minha mãe, o colo do Cássio, a promessa dele de que sabia o que fazer… e o cansaço que me venceu sem que eu percebesse. Demoro alguns segundos para me localizar de verdade, mas quando consigo, a sensação ruim já está ali, instalada de novo no peito.
O quarto está silencioso demais.
Sento devagar na cama e passo a mão pelo rosto. Minha cabeça ainda dói. Meus olhos estão inchados. E meu corpo inteiro parece pesado, como se eu tivesse passado o dia inteiro lutando, mesmo sem sair do lugar.
Eu me levanto, visto o robe por cima da camisola e saio do quarto.
Assim que começo a descer as escadas, percebo que alguma coisa mudou.
Não é impressão.
Mudou mesmo.
A casa está mais movimentada, mas de um jeito estranho. Contido. Organizado. Tenso. Ouço vozes baixas vindo do escritório, passos mais firmes do lado de fora, o som do portão abrindo e fechando, alguém falando ao telefone no jardim. Meu estômago aperta na mesma hora.
Desço mais rápido.
No meio do caminho, vejo um homem que nunca vi antes atravessando o hall ao lado de um dos seguranças antigos. Eles carregam pastas, falam baixo, entram em um cômodo e fecham a porta.
Paro no último degrau.
O ar da casa está diferente.
É como se eu tivesse dormido num lugar… e acordado em outro.
"Boa tarde."
A voz vem atrás de mim, e eu me viro a tempo de ver Tamara surgindo da cozinha com uma xícara de café nas mãos.
"Tudo bem? Está se sentindo melhor?"
Eu demoro um pouco para responder, porque a verdade é que não sei.
"O que está acontecendo?"
Ela olha por cima do ombro, como se quisesse medir o quanto deve me contar.
"O senhor Ravelli está resolvendo algumas coisas."
Resolvendo algumas coisas.
Meu coração acelera.
"Que coisas?"
Mas ela apenas me oferece a xícara, com aquele jeito gentil de sempre.



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