Cássio
O silêncio entre nós muda.
Agora não é mais desespero.
É foco.
André olha para o papel à minha frente e depois para mim.
"E o Jonathan?"
Aperto a caneta entre os dedos.
"Jonathan é o elo mais fraco."
Ele arqueia levemente a sobrancelha.
"Mesmo solto?"
"Principalmente solto." Inclino o corpo para frente. "Na cadeia, ele era um problema contido. Aqui fora, ele vai querer agir. Vai errar. Vai perder a paciência. Vai tentar contato. Vai querer provar poder. E homem emocional, quando se sente humilhado, fica previsível."
André fica em silêncio por um instante, absorvendo.
"E como a gente faz ele cair?"
Eu olho diretamente para ele.
"Sem pressa."
A palavra pesa entre nós.
"Jonathan acha que está caçando. Então vamos deixar ele acreditar nisso por mais um pouco. Mas cada movimento dele agora precisa virar prova. Mensagem, ligação, intermediário, perseguição, chantagem, tudo."
Bato a ponta da caneta no bloco.
"Quero um dossiê. Cronológico. Limpo. Irrefutável."
Ele assente, já entrando no ritmo.
"Eu consigo levantar tudo o que já temos e cruzar com os novos movimentos."
"Ótimo." Faço mais uma anotação. "E outra coisa: precisamos provocar erro. Não crime nosso. Erro dele."
André me encara.
"Como?"
"Aproximando pressão dos lados certos." Seguro o olhar dele. "Jonathan está perdendo herança, perdendo imagem e perdendo a Branca. Se sentir que está perdendo ainda mais, vai fazer alguma besteira para recuperar controle."
André cruza os braços.
"Você quer usar o ego dele contra ele."
"Quero." Minha voz endurece. "E vou."
Por alguns segundos, nenhum de nós fala nada. Só existe o som discreto do ar-condicionado e o peso daquela manhã virando outra coisa. Não mais medo. Ainda há medo, claro. Mas agora ele tem direção.
André quebra o silêncio.
"E a Branca?"
Eu olho para o andar de cima por reflexo, mesmo sem poder vê-la.
"A Branca não vai carregar esse plano." A resposta sai antes mesmo de eu pensar. "Ela já carregou dor demais. O papel dela agora é sobreviver a isso sem se culpar por tudo. Agora eu carrego essa família por ela. Eu sou o escudo dela."
Ele me observa com mais cuidado.
"E você acha que ela vai aceitar ficar fora?"
Eu solto um sorriso curto, cansado.


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