Branca
"Eu não posso afastá-los."
Minha voz sai falha, mas firme o suficiente para carregar a verdade que está me rasgando por dentro. Eu aperto os dedos da minha mãe ainda sobre a mesa, como se ela pudesse, de algum jeito, entender o tamanho do absurdo que está me pedindo.
"Eles são tudo o que eu tenho."
O nó na minha garganta cresce, mas eu continuo.
"Eu amo o Cássio. Eu amo a Aelyn. Eu não vou simplesmente desaparecer da vida deles como se eles fossem descartáveis. Eles me arrancaram de um poço que ... eu nem sei o que teria acontecido comigo se eles não tivessem me resgatado..."
Minha mãe me encara por alguns segundos em silêncio, e eu já conheço aquele olhar. Não é crueldade. É medo vestido de dureza. O problema é que, quando vem dela, os dois sempre se confundem.
"Então você está escolhendo colocar um alvo nas costas deles."
Meu coração tropeça dentro do peito.
Ela se levanta devagar, como se precisasse que cada palavra me atingisse de cima para baixo.
"Se você continuar com essa loucura de se casar com esse juiz…" a voz dela treme de irritação e desespero ao mesmo tempo, "eu nem sei o que o seu avô e o Jonathan podem fazer."
Eu me levanto tão rápido que a cadeira arrasta no chão, fazendo um barulho seco que parece ecoar pela cozinha inteira.
Não. Aquilo não pode ser verdade.
Eles não podem ter esse poder todo sobre a minha vida. Sobre a vida dele. Sobre a vida da Aelyn.
Podem?
Meu estômago revira. Minha cabeça gira. Eu quero negar, quero dizer que ela está exagerando, que está tentando me empurrar para o mesmo tipo de fuga que escolheu para si… mas a expressão dela não tem nada de encenação agora. E é isso que mais me assusta.
Porque, se até minha mãe está com medo de verdade, então talvez eu ainda não tenha entendido o tamanho do abismo em que estou metida.
André se levanta na mesma hora e se aproxima de mim. Quando sinto os braços dele me envolvendo, percebo o quanto estou tremendo.
"O que eu faço, irmão?" sussurro, a voz quebrando no meio da frase. "O que eu faço agora?"
Ele se afasta só o suficiente para olhar para mim, e vejo nos olhos dele a mesma tensão, a mesma raiva, a mesma impotência que está me sufocando. Mas ele tenta ser firme por mim.
"A gente vai dar um jeito."
Minha mãe se aproxima de nós, e eu odeio que ela esteja tão perto quando diz a próxima frase.
"O jeito é sumir."
Eu fecho os olhos por um instante.
Sempre isso. Fugir. Se esconder.
Desaparecer antes que eles nos destruam.
"Se o seu juiz estiver disposto a largar tudo, assim como a sua esposa, André…" ela continua, e eu sinto o sangue gelar com a forma como ela reduz a existência da Aelyn a um detalhe inconveniente, "Talvez vocês tenham alguma chance."
Ela suspira.
"Fora isso… sinto muito."
"Não."
A palavra sai antes mesmo que eu perceba.
Eu me afasto do abraço do André e encaro minha mãe, sentindo o desespero se transformar em resistência.
"Não. Tem que ter outro jeito." Minha respiração está curta demais. "Não é possível que seja só isso. Não é possível que a única saída seja sempre fugir."
Minha mente corre em círculos, tentando encontrar uma fresta, um nome, uma alternativa qualquer.

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