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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 183

Branca

Eu fico alguns segundos apenas observando a minha mãe.

Ela está sentada à mesa da cozinha como se tivesse sido colocada ali para compor uma cena. As fotos antigas espalhadas à sua frente, a postura contida, o olhar preso em memórias que eu nem sei se são saudade ou estratégia. Conhecendo Vânia, provavelmente os dois. Ela sempre soube usar aquilo que sentia para manipular o ambiente ao redor. Não de um jeito cruel, não como os Krieger faziam, mas de um jeito que sempre nos deixava culpados antes mesmo de abrirmos a boca.

Ainda assim, antes que eu consiga dar qualquer passo, André se adianta.

Ele caminha até ela com a familiaridade de quem, apesar de tudo, ainda tenta preservar alguma ternura. Se abaixa, beija o topo da cabeça dela e diz bom dia, como se estivéssemos em qualquer manhã comum e não prestes a abrir uma ferida antiga demais para caber naquela mesa.

"Como você está?"

Minha mãe solta um suspiro teatral, sem erguer os olhos de imediato.

"Levando", diz, com aquela voz carregada de mágoa ensaiada. "Depois que meus filhos ingratos me abandonaram, passei a levar a vida como dá."

Eu reviro os olhos antes mesmo de pensar, e André claramente faz um esforço para não responder à provocação. Em vez disso, se senta ao lado dela e olha para as fotografias espalhadas pela mesa.

"Por que está com essas fotos?"

Ela finalmente ergue o rosto para ele, e a expressão que usa é tão cuidadosamente montada que quase me faz sorrir.

"Porque eu queria lembrar de quando tinha vocês só para mim."

A culpa vem. Claro que vem. É quase automática. Mas já não me atravessa da mesma forma que antes.

Eu me aproximo devagar e abraço minha mãe por trás da cadeira. Sinto a mão dela acariciar o meu braço de forma leve, quase distraída, e por um instante permito a mim mesma sentir aquele gesto como o que ele poderia ser em qualquer outra família: afeto puro. Depois contorno a mesa e me sento do outro lado, deixando Vânia entre mim e André.

Os filhos dos dois lados. A mãe no meio. Como se ainda fôssemos uma família inteira.

"Mãe", eu começo, respirando fundo antes de encará-la, "eu preciso te perguntar uma coisa."

Ela suspira antes mesmo que eu continue, como se já soubesse que a visita não era sobre saudade.

"Até imagino o que seja."

André não enrola.

"O senhor Victor e a Ana foram na casa da Branca ontem."

Minha mãe arregala os olhos e imediatamente se vira para mim, mais alerta do que esteve desde que chegamos.

"Foram?"

Eu assinto.

"Eles conseguiram soltar o Jonathan."

Ela bufa, amarga, irritada, e a reação vem tão rápida que parece visceral.

"Claro que conseguiram." A mão dela aperta a borda da mesa. "Aqueles malditos Krieger."

O nome sai da boca dela como se queimasse.

Por um segundo, o silêncio paira, pesado, até que ela se inclina levemente para frente e fala a solução que, para ela, sempre foi a única possível.

"Acho melhor a gente catar as nossas coisas e sumir."

Eu pisco, sem conseguir responder na mesma hora, e ela continua, mais apressada, como se já estivesse montando o plano na cabeça.

"Temos dinheiro pra isso. Ninguém precisa ficar sabendo. A gente desaparece, vai para outro lugar, começa de novo e..."

"Mãe." Minha voz a corta antes que eu perceba.

Ela para.

Eu a encaro.

"Eu tenho uma família aqui."

Minha mão repousa sobre a mesa, firme, tentando sustentar não só minhas palavras, mas a vida que construí. "O André está começando a dele. Nós não podemos fugir toda vez que as coisas ficarem difíceis."

O olhar dela muda no mesmo instante. A urgência dá lugar a algo mais duro. Mais cansado. Mais cruel porque vem da experiência.

"Então se prepare para voltar para o inferno." Sinto o sangue gelar.

Meu corpo inteiro enrijece, e eu olho para o André sem perceber, como se precisasse confirmar se ouvi mesmo aquilo.

183. Conversa reveladora 1

183. Conversa reveladora 2

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