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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 185

Branca

"Me leva embora."

Minha voz sai fraca, quebrada, quase irreconhecível até para mim mesma. Eu nem sei em que momento as lágrimas começaram a escorrer, só sei que já não consigo mais enxergar direito a sala, a mesa, as fotos antigas, nem a minha mãe parada diante de nós com aquele olhar de quem acredita, de verdade, que está nos salvando ao nos condenar à fuga.

"Eu não consigo pensar agora", continuo, respirando com dificuldade. "Não consigo raciocinar. Eu preciso… eu preciso de um tempo."

Minha mãe balança a cabeça de imediato, como se o simples pedido de tempo fosse mais um erro irreparável.

"Quanto mais tempo você demorar, mais perto eles vão estar." A voz dela vem carregada de urgência. "Você precisa se decidir, Branca. E precisa se decidir logo."

"Chega, mãe."

A voz do André corta o ar com firmeza, e pela primeira vez desde que chegamos ali eu vejo nele algo além da paciência cansada de sempre. Há irritação. Proteção. Limite.

"Ela já entendeu."

Ele se coloca um pouco mais à minha frente, como se quisesse absorver parte daquela pressão por mim.

"Agora deixa a Branca pensar. Ela precisa de tempo para assimilar tudo isso." Então ele respira fundo, passa a mão no rosto e completa, mais baixo: "E eu também. Nós precisamos de tempo."

Minha mãe nos olha em silêncio por alguns segundos. Quando volta a falar, a voz dela vem mais macia, mas não menos pesada.

"Eu amo vocês."

Meu peito aperta.

"Eu só estou dizendo tudo isso porque quero vocês vivos. Quero vocês bem." Ela cruza os braços sobre o próprio corpo, como se estivesse tentando se sustentar também. "Vou arrumar minha mala hoje. E vou esperar por vocês."

Sinto um arrepio subir pelos meus braços.

"Se vocês decidirem partir… eu estou aqui para fazer isso com vocês."

Eu não consigo responder.

Só sinto o rosto cada vez mais molhado, a respiração falhando, a cabeça girando como se tudo ao meu redor tivesse se tornado grande demais. Então olho para o André, me agarrando à única coisa que ainda faz sentido naquele momento.

"André…"

Minha voz falha.

"Me leva embora, por favor."

Ele não hesita.

Apenas concorda com a cabeça, segura meu braço com cuidado e me guia para fora dali.

O caminho de volta até a minha casa acontece dentro de um silêncio espesso, quase irreal. Nenhum de nós tenta preencher o espaço com palavras vazias. Não há nada que possa ser dito agora sem soar pequeno demais diante do tamanho do medo que minha mãe acabou de colocar dentro de mim.

Eu fico olhando pela janela, mas sem realmente ver a rua. Minha mente está em outro lugar. Na voz dela. No avô. No Jonathan. Na Ana. No que Cássio pode perder por minha causa. No que a Aelyn pode sofrer só por ter me amado.

Quando o carro para, eu nem espero direito.

Abro a porta e saio quase correndo. Entro em casa sem olhar para trás.

Subo as escadas rápido demais, tropeçando na pressa, no desespero, na necessidade de me esconder em algum lugar onde eu possa finalmente cair sem que ninguém me veja. Mal consigo respirar quando entro no quarto. Fecho a porta, levo a mão à boca e então tudo desaba de vez.

Eu choro.

Choro com força, com raiva, com medo, com aquela sensação esmagadora de que isso nunca vai acabar. De que não importa quantas vezes eu tente reconstruir a minha vida, eles sempre vão encontrar um jeito de me arrastar de volta para o inferno.

Não sei quanto tempo fico assim. Só sei que, em algum momento, ouço a porta abrir. E não preciso me virar para saber quem é.

O ar muda. O silêncio muda.

Cássio está ali.

No instante seguinte, seus braços me cercam por trás, me puxando para aquele abraço firme que sempre parece maior do que o próprio mundo. Eu me desmancho ainda mais dentro dele. Como se meu corpo finalmente tivesse encontrado permissão para não ser forte.

Ele beija meus cabelos. Me embala devagar.

Não pergunta nada. Não exige explicações.

Só me segura. E isso, por si só, quase me destrói.

185. Rara paz 1

185. Rara paz 2

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