Branca
Quando voltamos para a cozinha, a sensação estranha que estava apertando meu peito na sala ainda vem comigo. Eu tento não deixar isso transparecer no rosto, mas é impossível esconder totalmente quando a cabeça já está um passo à frente, imaginando como vai ser encarar minha mãe depois de tanto tempo fugindo desse assunto.
Cássio ergue os olhos assim que entramos, como se estivesse esperando a primeira oportunidade para tentar ler em mim o que foi decidido. Laís também percebe na hora que a conversa com o André não foi simples, e Aelyn, que está sentada no balcão balançando as perninhas, para até de brincar com uma colher para nos observar com mais atenção.
"Precisamos ir até a casa da nossa mãe", digo, sem rodeios, porque sei que, se eu enrolar, vou perder a coragem.
A reação vem primeiro da Aelyn.
"Não."
A vozinha dela sai contrariada, e ela franze o nariz daquele jeitinho dramático que sempre me faz sorrir, mesmo quando não estou com vontade.
"Eu não quero que você vá."
Meu coração aperta na mesma hora. Eu caminho até ela e acaricio seu rosto, mas antes que eu possa explicar qualquer coisa, vejo Laís olhar para o André com aquela preocupação silenciosa que ela tenta disfarçar. André percebe e, em vez de responder com a mesma tensão que eu sei que ele está carregando, apenas pisca para ela, como se dissesse sem palavras que está tudo sob controle.
"É uma conversa que a gente deveria ter resolvido há muito tempo", ele diz, a voz firme, mas tranquila o suficiente para não assustar mais ninguém.
Laís concorda devagar, respirando fundo antes de mudar um pouco o rumo da energia da cozinha.
"Bom…" ela diz, se virando para o Cássio. "Antes que eu me esqueça no meio de tanto caos, eu acabei de contar ao Cássio que já pode voltar ao fórum."
Por um segundo, tudo ao redor parece dar uma pausa.
Então meu peito se enche de alívio tão rápido que chega a doer. Eu me viro para o Cássio e sorrio de verdade, daquele jeito que vem do fundo, antes de me jogar nos braços dele.
"Você está falando sério?"
Ele ri, me segurando pela cintura.
"Muito sério."
Meu abraço aperta ainda mais. A notícia é tão boa que quase parece deslocada no meio de tudo o que estamos vivendo, como se fosse uma pequena brecha de luz insistindo em entrar num lugar que passou tempo demais escuro.
"Mas", ele continua, e eu me afasto só o suficiente para olhar para ele, "acho que vou pedir mais alguns dias antes de voltar."
Ergo uma sobrancelha.
"Vai?"
Ele sorri daquele jeito calmo que me desmonta.
"Vou. Gostei de ficar de férias com a minha família."
Todo mundo ri, e por um instante a cozinha se enche de uma leveza que eu quase tinha esquecido que ainda existia.
"Então aproveita", digo, ainda segurando a mão dele. "Nós voltamos logo. A Tamara deixou tudo pronto para o almoço, então é só esquentar."

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