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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 181

Branca

Assim que entro na sala com o André, sinto a tensão voltar a se instalar no meu corpo como se nunca tivesse ido embora de verdade. Do lado de fora, ainda consigo ouvir a voz animada da Aelyn ecoando lá da cozinha, misturada à da Laís e à do Cássio, e isso só torna tudo ainda mais estranho. Como pode a vida continuar acontecendo normalmente em um cômodo enquanto, no outro, eu estou tentando descobrir como impedir que o meu passado destrua tudo de novo?

André fecha a porta atrás de nós e se vira para mim com aquela expressão séria que sempre surge quando ele já sabe que a conversa não vai ser simples.

"O que foi?"

Eu respiro fundo antes de responder, porque só de colocar aquilo em palavras tudo parece mais real.

"Eu e o Cássio estávamos conversando hoje cedo. A gente acha que a melhor opção agora é falar com a mamãe."

Ele me observa em silêncio, esperando que eu continue.

"Depois que o meu pai morreu, eles nunca mais a perturbaram. Nunca mais chegaram perto como estão fazendo comigo agora." Cruzo os braços, tentando organizar o raciocínio enquanto falo. "Então tem alguma coisa ali. Alguma coisa que ela sabe. Alguma coisa que talvez explique por que eles pararam com ela… e talvez mostre como a gente pode fazer eles pararem comigo também."

André concorda com um aceno lento, mas o olhar dele continua pesado.

"Pode ser." Ele passa a mão pelo maxilar, pensativo. "Mas você precisa levar uma coisa em consideração, Branca. O seu pai morreu. O Jonathan não."

Eu fecho os olhos por um instante, porque sei que ele não está dizendo aquilo para me desanimar. Está dizendo porque é verdade. Porque o tipo de homem que Jonathan é não desaparece só porque foi contrariado.

"Eu sei", respondo, mais baixo. "Mas eu tenho provas. Tenho mensagens, tenho registros, tenho tudo. Tenho como provar por que não quero voltar. Por que não posso voltar."

Ele me encara, atento.

"E eu não estou falando só dos abusos físicos. Ou do cárcere. Ou do que ele já fez comigo."

Minha garganta aperta. Eu não queria dizer aquilo em voz alta. Não para ninguém. Mas se não disser para o André, vou dizer para quem?

"Ele me disse que só quer um filho."

Vejo o corpo dele enrijecer.

"Depois disso", continuo, sentindo o nojo voltar a subir pela minha garganta, "ele me mataria… para que eu não roubasse a criança de novo."

O silêncio que cai entre nós é tão pesado que quase sufoca.

Por um segundo, André não fala nada. Ele apenas me encara, absorvendo cada palavra, e eu vejo exatamente o momento em que a raiva toma conta dele.

"Ele disse isso?"

A voz dele sai baixa. Baixa demais.

Eu assinto.

"Disse."

As mãos dele se fecham em punho.

"Eu vou matar esse desgraçado."

Eu balanço a cabeça imediatamente.

"Não fala isso pro Cássio." Ele me olha como se eu tivesse enlouquecido. "Você está me ouvindo?"

"Não contou para ele..."

"Você conhece o Cássio melhor do que eu. Não posso simplesmente dizer que... não posso. E você também não vai falar nada."

"Ok." ele passa a mão exasperado pelo cabelo. "Mas você não pode esconder isso dele para sempre."

Eu passo a mão pelo rosto, sentindo o cansaço bater de novo.

"Talvez eu devesse contar. Eu sei. Mas agora não." Dou um passo para trás, como se precisasse de espaço para dizer a próxima parte. "Eu só sei de uma coisa: eu não posso voltar. Nem que eu tenha que sumir de novo."

O olhar dele muda na mesma hora.

Não por discordar de mim, mas porque ele entende exatamente o que essa frase significa.

"Agora você não pode fazer isso", ele diz, mais sério do que antes. "Não do jeito que fez da última vez."

181. Encarando os fatos 1

181. Encarando os fatos 2

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