Branca
Acordo ainda nos braços do Cássio.
Por alguns segundos, fico imóvel, sentindo o peso do braço dele sobre a minha cintura, o calor do corpo dele colado ao meu e a respiração calma batendo contra meu pescoço. É um daqueles raros momentos em que tudo parece silencioso o suficiente para eu fingir que o mundo lá fora não existe. Que não há ameaças, não há passado batendo à porta, não há nenhuma família tentando me arrastar de volta para um lugar onde eu quase deixei de existir.
Mas a paz dura pouco.
Eu me remexo devagar, tentando sair sem acordá-lo, e ele só me aperta mais contra si.
"Só mais cinco minutinhos…"
A voz dele sai rouca de sono, preguiçosa, e eu não consigo evitar a risada que escapa dos meus lábios. Me viro para ele, encontrando aquele rosto ainda amassado pela manhã, bonito de um jeito irritante até quando mal abriu os olhos.
"Eu preciso levantar."
Ele franze a testa, ainda sonolento.
"Isso não me parece um argumento forte o suficiente."
Eu sorrio, mas a lembrança do que preciso fazer desfaz parte da leveza do momento.
"Vou ligar para o André." Minha voz sai mais séria, e ele percebe na mesma hora. "Quero marcar uma conversa com a nossa mãe. Se eu ligar direto pra ela, ela vai desconfiar. Vai sentir que tem alguma coisa por trás e vai fugir de novo. Eu preciso que isso aconteça o mais rápido possível."
O sono dele desaparece aos poucos, substituído por aquela atenção firme que ele sempre coloca em tudo o que diz respeito a mim.
"Você quer descobrir sobre o seu pai", ele murmura.
"Mais do que isso." Apoio a mão no peito dele, sentindo o coração calmo que contrasta tanto com o meu. "Eu quero descobrir como acabar com essa loucura que eles estão fazendo com a nossa vida. Porque não é mais só sobre o passado, Cássio. É sobre o que eles ainda acham que podem fazer comigo."
Ele passa a mão pelos meus cabelos, me observando em silêncio por um momento.
"Eu concordo. Mas a sua mãe também não é fácil." O jeito como ele fala não tem julgamento, só cautela. "Ela não aceita nem a mim nem a Laís. Então acho melhor a gente não ir. Se aparecermos com você, talvez ela fique ainda mais na defensiva."
Eu suspiro, porque sei que ele está certo.
Minha mãe, depois que perdeu meu pai, construiu um muro em volta de si mesma tão alto que acabou trancando todo mundo do lado de fora. No começo eu achava que era dor. Depois entendi que era medo. E, com o tempo, esse medo virou controle, resistência, desconfiança. Chegou ao ponto de ela não aceitar ninguém que eu ou o André colocássemos na nossa vida, como se amar alguém novo fosse uma espécie de traição ao passado.
"Não podemos arriscar", digo baixinho.
Ele concorda com um aceno, mas logo acrescenta:
"Mesmo assim, eu vou ficar no carro, do lado de fora. Se você precisar de qualquer coisa, eu entro."
Levo a mão ao rosto dele e faço carinho devagar.
"O André vai estar comigo. Não se preocupa."
Ele solta uma risada curta, quase sem humor.
"É impossível não me preocupar com você."
Eu sorrio de leve, porque sei que é verdade. Nele, a preocupação nunca parece exagero. Parece amor em estado bruto.
"Mas tudo bem", ele continua. "Enquanto você estiver com a sua mãe, eu vou organizar nossa ida para Vegas e marcar sua consulta pra tirar o DIU."
Eu arregalo os olhos por um segundo antes de começar a rir.



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