Branca
O barulho da porta de metal se fechando atrás de nós ecoou pelo corredor do presídio. O som é pesado, assustadoramente agourento. Como se algo estivesse nos perseguindo.
Por alguns segundos, nenhum de nós fala nada.
Eu só continuo andando ao lado de Cássio, sentindo o coração ainda acelerado dentro do peito.
As palavras da Clara continuam rodando na minha cabeça. Cada uma mais absurda que a outra. Cássio percebe. Claro que percebe. Ele sempre percebe.
Antes que eu consiga dizer qualquer coisa, a mão dele encontra a minha. Os dedos se entrelaçam com firmeza, como se estivessem me puxando de volta para a realidade. E seu corpo fica mais próximo, como uma rede de proteção.
"Ei." A voz dele é baixa.
Ergo os olhos para ele. Ele me encara por alguns segundos no meio do corredor vazio e segura meu rosto entre as mãos.
"Olha para mim." Obedeço.
Os olhos dele estão sérios, mas suaves.
"Ela é doente. Nada do que falou foi sobre nós, e sim sobre ela. Não fique pensando naquela louca. Agora acabou."
Respiro fundo.
"Eu sei."
Ele alisa minha bochecha com o polegar.
"E nada do que ela disse muda quem você é. Ou o que eu sinto por você?"
Meu peito aperta. Assinto devagar.
"Eu só... precisava entender o porquê, mas ele não existe... ela não está lúcida. Eu achei que, sei lá, que seria uma coisa trivial... mas ela acredita mesmo que somos culpados por tudo que aconteceu na vida dela."
"Eu sei. Fizemos nosso melhor, mas..."
Ele beija minha testa. "Não podemos ajudá-la. Agora ela vai pagar por seus erros e nós vamos seguir nossas vidas."
E pela primeira vez desde que entramos naquele lugar, sinto meu corpo relaxar um pouco.
Saímos do presídio juntos, caminhando em silêncio até o carro. O ar do lado de fora parece mais leve. Mais respirável.
Durante o caminho de volta, conversamos pouco. Não porque temos coisas mal resolvidas. Mas porque não precisamos falar.
A presença dele ao meu lado é suficiente.
Quando finalmente entramos em casa, a atmosfera muda imediatamente. É leve como sempre deveria estar.
Tamara está sentada no sofá da sala com Aelyn, que no segundo em que nos vê pula do lugar como um foguete.
"Tia Branca! Papai!"
Ela corre até mim. Eu me abaixo a tempo de pegá-la no colo.
"Ei, princesa. Se comportou?"
Ela me abraça forte.
"Sim. Eu fiz tudo que a tia Tamara mandou. Mas eu tenho que contat uma novidade." olho para Cássio desconfiada.
"Ah é? E qual seria?"
"Eu já escolhi a escola em que eu quero estudar!"
Cássio, que estava tirando o blaser, para no meio do movimento. E olha para ela como se houvesse outra cabeça nascendo em seu ombro.
Então sua postura endurece, e ele finge que não ouviu.
Eu sorrio.
"Ah é?"
Aelyn faz que sim com a cabeça, animada.
"Eu vi o comercial na televisão! Parece muito legal! Tem brinquedos, e bichinhos da fazenda. Eu posso estudar lá?"
Eu olho rapidamente para Cássio. Ele continua caminhando pela sala como se nada estivesse acontecendo.
"Eu acho que já passou da hora de você sair das aulas online e conhecer uma escola de verdade. Vou pegar o nome dela e ligar para a gente ir conhecer, tá bom?"
"SIM!!!" ela praticamente pula do meu colo, correndo animada pela sala.
Cássio não responde. Ele simplesmente começa a subir as escadas.
Eu reviro os olhos e vou atrás dele.
"Você ouviu o que ela disse." questiono.


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