Branca
O cheiro do lugar é frio. Desinfetante forte, concreto úmido e aquele silêncio pesado que só existe em presídios.
Estou sentada na recepção, olhando para o relógio na parede pela terceira vez em menos de um minuto. Meu pé b**e no chão sem que eu perceba.
Cássio está ao meu lado, de pé. Com os braços cruzados, tentando não explodir a qualquer momento.
Ele não falou nada nos últimos cinco minutos, mas eu consigo sentir a tensão no corpo dele como se fosse eletricidade no ar.
Um agente passa pelo corredor atrás do balcão. O barulho das chaves ecoa pelo lugar.
É tudo tão impessoal e opressivo.
“Branca.” A voz de Cássio vem baixa, me tirando do transe.
Eu olho para ele. E percebo o quanto ele estava prestando atenção em mim.
“Você tem certeza que quer fazer isso?”
Engulo em seco. A pergunta pesa mais do que eu gostaria de admitir. Porque a verdade é que… não tenho certeza de nada. Só sei que preciso olhar para ela. Preciso ouvir. Preciso entender. Mesmo que a resposta me destrua um pouco mais.
“Eu preciso,” digo finalmente. Minha voz sai mais firme do que eu me sinto.
Cássio me observa por alguns segundos. Depois, suspira.
Ele passa a mão pelo meu ombro, e se mantém ali, como minha âncora Me mostrando que está ao meu lado mesmo que tudo dê errado.
“Então vamos fazer isso.”
Um agente se aproxima.
“Doutor Ravelli?”
Cássio faz um pequeno aceno.
“Ela está pronta para recebê-los.”
A palavra 'recebê-los' me dá vontade de rir. Como se aquilo fosse uma visita social.
Me levanto e as mãos de Cássio já se enroscam na minha. Ambas estão frias, mostrando o tamanho do estrago que aquela visita pode causar.
Seguimos o agente por um corredor longo. O som dos nossos passos ecoa no chão de concreto. A segurança é reforçada ali. Cada porta que se fecha parece mais pesada que a anterior, me dando uma real noção dos monstros que existem ali dentro.
Meu coração começa a bater mais rápido.
“Se ela disser alguma coisa absurda…”
A voz de Cássio vem baixa ao meu lado.
“…não deixe isso entrar na sua cabeça.”
Eu olho para ele.
“Você acha que ela vai tentar me provocar?”
Ele solta uma pequena risada sem humor.
“Eu tenho certeza.”
Paramos diante de uma porta de metal.
O agente gira a chave.
O barulho da fechadura ecoa.
“Ela está esperando.”
A porta se abre com um rangido metálico.
Do outro lado está a pequena sala de interrogatório. Uma mesa. Três cadeiras. E Clara.
Sentada do outro lado da parede de vidro, como se estivesse perfeitamente confortável ali.
Esperando.
Ela levanta os olhos no instante em que entramos.
E sorri. Um sorriso que me faz entender, naquele exato segundo… Que nada dentro da cabeça dela faz sentido.
“Então…” ela diz, cruzando os braços. “A Madre Teresa finalmente apareceu.”
Minha garganta aperta.
“Por quê?”
Minha voz sai antes mesmo que eu consiga controlar.
Ela ergue as sobrancelhas.
“Por que o quê?”
“Por que você fez isso?” pergunto, sentindo a raiva subir. “Por que mentiu? Por que armou tudo aquilo?”
O sorriso dela aumenta.
“Porque eu quis.”
Cássio se mexe ao meu lado. Eu sinto. Ele está tentando não explodir.
Clara inclina a cabeça.
“Você sempre foi muito dramática, Branca.”
“Eu confiei em você.”
Ela solta uma risada curta.
“Esse foi seu primeiro erro.”
Minhas mãos se fecham sobre a mesa.
“Você destruiu minha vida.”
“Não seja exagerada.” Clara revira os olhos. “Se alguém destruiu sua vida, foi esse homem.”
Ela aponta para Cássio.
A sala fica ainda mais silenciosa. O olhar de Cássio escurece.
“Explique.” A voz dele é baixa. Controlada. Perigosamente controlada.
Clara se inclina para frente.
“Meu marido morreu por causa dele.”
Eu franzo a testa.
“O quê?”
Ela b**e o dedo na mesa.
“O estresse.” A palavra sai quase cuspida. “Todo o estresse que esse homem causava na vida dele.”
Cássio não reage.
Mas eu sinto a tensão no corpo dele aumentar.
“Seu marido morreu de câncer,” eu digo. Clara sorri.


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