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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 143

André

“Fecha a porta.”

A voz do Cássio veio baixa, mas firme, do jeito que ele usava no tribunal. Meu estômago revirou na hora. Porque quando ele fala assim, não era convite. Era uma ordem. E eu obedeci.

O escritório dele cheirava a madeira, café velho e uísque caro. A cidade lá fora fazia barulho pela janela, buzinas distantes e sirenes que ainda me lembravam do galpão.

Eu ainda via o rosto da Branca sangrando. E isso me deixava meio sem ar.

Cássio tirou dois copos do armário e serviu sem perguntar. O gelo tilintou como se estivesse zombando da minha tensão.

“Bebe”, ele disse, me entregando, e olhei para o líquido antes de virar de uma vez.

Ele se sentou na poltrona grande, a postura relaxada demais para alguém que tinha acabado de atravessar um inferno. Mas os olhos… os olhos não estavam relaxados. Estavam alertas. O braço enfaixado denunciava o resto.

“Agora fala”, ele disse.

Eu soltei o ar devagar.

“Eu nem sei por onde começar.”

“Começa pelo que te deixou com essa cara”, ele falou, apontando com o copo para mim. “Você está parecendo um adolescente que fez besteira. Só fala sobre o que você e a Laís estão escondendo."

Eu soltei um riso curto. Sem humor.

“Não só parece. Eu fiz besteira.”

Ele levantou uma sobrancelha.

“Fez o quê?”

Eu olhei para o uísque, girando o copo na mão. Minhas palmas estavam suando, e isso era ridículo. Como se eu estivesse prestes a levar bronca do meu pai, não do meu amigo.

“Eu… eu e a Laís…”

A palavra travou na garganta.

Cássio inclinou o corpo para a frente. “Você e a Laís o quê?”

Eu respirei fundo.

“Nos casamos.”

Um segundo de silêncio.

Só um.

Cássio tinha acabado de levar o copo à boca… e cuspiu o uísque no chão.

“Vocês o quê?” ele falou, tossindo, rindo e xingando ao mesmo tempo. “Você tá de brincadeira comigo.”

Eu levantei as mãos. “Fala baixo, porra.”

Ele passou a mão no rosto, incrédulo. O riso dele veio fácil, mas eu vi a tensão por trás. Vi porque eu o conheço.

“Você casou em Vegas com a melhor amiga da minha mulher”, ele disse, como se estivesse testando o som das palavras. “E eu descobri por uma criança.”

“Sua filha deveria estar dormindo naquela hora”, eu falei, a voz embargada de vergonha.

“Ela tem um faro melhor que o seu”, ele falou, e riu de novo.

Eu tentei rir junto.

Não deu.

Cássio se recostou, mais calmo, mas ainda com aquele brilho de diversão no olhar. “Tá, é facil resolver isso. Anula e pronto.”

Essa palavra me deu um soco no peito.

Anular.

Como se fosse um contrato qualquer. Como se eu não tivesse sentido o coração disparar no momento que o cara em Vegas falou “marido e mulher”, e eu pensei: Pronto. Fiz merda. E eu gostei.

Eu balancei a cabeça.

“Não.”

Cássio parou. O riso sumiu aos poucos. “Você não quer?”

“Não.” Eu senti um nó na garganta.

Ele me encarou por alguns segundos, sério agora. “Por quê?”

Eu respirei fundo, mas o ar não parecia entrar direito.

“Porque eu quero conhecê-la.”

Cássio piscou, como se não esperasse essa resposta.

“Eu quero… de verdade”, eu continuei, e senti minhas bochechas queimarem de raiva de mim mesmo por estar soando carente. “E casados… ela não tem como fugir.”

Contei o que eu pensava. E me arrependi na mesma hora.

Cássio soltou uma risada curta, balançando a cabeça. “Você tá usando casamento como coleira.”

“Não é isso”, eu falei rápido.

Ele apontou com o copo. “É sim. Só que você tá chamando de romance.”

Eu apertei a mandíbula.

“Eu não quero prendê-la”, eu falei, a voz saindo mais dura. “Eu só… eu não quero perder. Laís é arisca demais."

Porque perder dói.

143. Eu estou fazendo tudo errado 1

143. Eu estou fazendo tudo errado 2

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