Laís
A cidade lá embaixo parece calma demais para o caos que ainda existe dentro de mim.
Estou encostada no parapeito da sacada, os braços cruzados, observando as luzes dos prédios e o fluxo distante dos carros. O vento da manhã b**e no meu rosto, mas não leva embora o peso que ainda sinto no peito.
O que eu estava fazendo da minha vida.
Por que simplesmente não conseguia dizer a todos que eu e o André estávamos juntos, independente do nosso status? Bufei soltando o ar com força.
Ouço a porta de vidro deslizar atrás de mim e nem preciso me virar para saber quem é.
André encosta ao meu lado, apoiando o cotovelo no parapeito.
“Está preparada para o interrogatório?” ele pergunta de uma forma divertida, e sei que ele está tentando deixar o clima mais leve.
Dou de ombros.
“Sei lá.” Solto um suspiro longo. “Não sei por que tudo precisa ser tão complicado.”
Ele não responde de imediato, apenas me observa por um longo momento.
“Mas você sabe os meus motivos para a gente ter cautela”, continuo.
Ele concorda com um pequeno aceno de cabeça e por um momento, ficamos em silêncio, olhando a cidade, como se aquilo fosse o mais pacífico que conseguiríamos.
Então ele se endireita.
“Laís, eu sei que você quer esconder de todos, mas é minha irmã”, diz com calma. “E sua melhor amiga.” O peso das palavras pousa entre nós. “Talvez você devesse conversar com ela.” Ele dá de ombros. “Talvez isso ajude de algum jeito.”
Eu solto uma risada curta.
“Dizer o quê?” Olho para ele séria, tentando entender como falar aquilo. “Ei, amiga… casei com seu irmão em Vegas. Surpresa.”
Ele não acha graça, e nem era para achar, mas eu me excedi e sei disso quando o olhar dele muda. Solto o ar devagar tentando acalmar a frustração em meu peito. "Desculpa André, eu só..."
Passo a mão pelo cabelo, tentando organizar os pensamentos.
“Você me prometeu que a gente ia devagar.” Minha voz sai mais séria agora. “É só isso que eu quero.” Ele não me interrompe. “Eu gosto de você”, continuo. “Gosto de estar com você.”
O vento mexe nos meus cabelos enquanto procuro as palavras certas.
"Mas...?" as palavras saem da boca dele mais baixas.
“Mas até quando isso vai ser suficiente?” Olho para a cidade. “E se não for… o que acontece com a minha carreira?”
Minhas mãos apertam o parapeito.
"Laís, eu..."
“Eu não tenho mais ninguém, André.” A frase sai quase num sussurro. "Não posso me dar ao luxo de não pensar nisso. Eu tenho que me virar sozinha... e estar com você pode ser o céu ou condenar a minha carreira. Por que se você não se lembra, eu já soquei a cara de um advogado famoso. Acha mesmo que ele não vai aproveitar essa lacuna para trazer isso a tona?”


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