Cássio
O cheiro de antisséptico incomoda mais do que o de pólvora jamais incomodou, porque pólvora anuncia o fim da luta, o barulho que marca que a ameaça acabou, enquanto o antisséptico é o cheiro da espera incerta, da fragilidade que ainda persiste depois que tudo parece ter terminado.
Estou sentado na maca estreita da emergência, o médico aplicando anestésico local no braço ferido, e o corte arde fundo, não foi só um raspão como eu disse pra ela, a bala pegou de lado, abriu a carne o suficiente para exigir pontos que vão deixar uma marca feia por um tempo.
Mesmo assim, mal registro a dor; minha atenção está inteira do outro lado da cortina fina que separa as macas, onde ela está deitada, e cada bip ritmado do monitor cardíaco, cada tilintar de instrumento metálico ou voz baixa dos enfermeiros, faz meu pescoço tensionar involuntariamente, como se meu corpo inteiro estivesse pronto para pular caso algo desse errado.
Tento espiar por cima do ombro do médico, o corpo inteiro inclinado para a frente na maca, impaciente demais para disfarçar, e acabo soltando a pergunta com a voz mais ríspida do que eu pretendia: “Doutor, quanto tempo mais isso vai levar?”
Ele nem levanta os olhos do corte, continua passando a agulha com calma metódica, e responde sem alterar o tom: “Senhor, preciso terminar os pontos. São oito, ainda faltam três. Se eu apressar, fica mal feito e pode infeccionar.”
Eu respiro fundo, o ar saindo curto e irritado, e retruco seco, quase entre dentes: “Então termina logo. Eu não consigo ficar aqui parado enquanto não sei se ela está respirando direito do outro lado dessa cortina. Faz o que tem que fazer, mas termina agora.”
Ele solta um suspiro curto, e acelera um pouco o movimento da agulha, murmurando mais para si mesmo do que para mim: “Já estou quase acabando. Fica quieto um minuto que é melhor pra todo mundo.”
Eu aperto a mandíbula, forçando a perna a parar de bater no chão, mas o tique nervoso volta em segundos. Cada bip do monitor que vem do outro lado da cortina parece mais alto que o anterior, e eu fico contando mentalmente como se isso pudesse acelerar o tempo. O médico dá o último ponto, corta a linha com a tesoura e começa a fazer o curativo, apertando a gaze com mais força do que o necessário, talvez pra me lembrar que ainda estou ali sob cuidados dele.
“Pronto. Curativo feito. Agora evita esforço com esse braço por pelo menos uma semana. Nada de carregar peso, nada de briga, nada de heroísmo.”
Eu já estou me levantando da maca antes mesmo de ele terminar a frase, ignorando a queimação que sobe pelo braço inteiro, e respondo sem olhar pra trás: “Sem promessas, doutor. Obrigado.”
Ele balança a cabeça, mas não discute mais. Eu atravesso a sala em passos largos, o coração batendo forte no peito, porque só vou conseguir respirar de verdade quando passar por aquela cortina e vê-la com meus próprios olhos.
Ela está deitada na cama hospitalar, com curativos cobrindo os cortes no rosto, o lábio ainda inchado e arroxeado, e o monitor ao lado da cama marcando o ritmo constante do coração dela, um som que, naquele momento, parece a coisa mais preciosa do mundo.
Paro por um segundo inteiro só para olhar, porque vê-la ali, tão vulnerável depois de tudo, dói mais fundo do que qualquer ferimento meu, mas ao mesmo tempo alivia algo que estava apertado no peito desde o instante em que vi a arma encostada na testa dela.


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