Branca
O dedo dele estava no gatilho. Eu vi o músculo da mão se contrair, branco de tanta força. Vi o olhar de Cássio mudar, de medo para algo selvagem, algo que não tinha mais volta. Vi a loucura nascer nos olhos dele, crua, sem filtro. Ele ia fazer. Ia avançar. Ia morrer por mim. E naquele milésimo de segundo, uma verdade me atravessou como faca: Se ele cair aqui, se o sangue dele manchar esse chão sujo por minha causa, eu não sobrevivo. Não de verdade. Eu morro junto, mesmo que o coração continue batendo.
Então eu fiz a única coisa que ainda era minha. Joguei o corpo pra trás com toda a força que restava. A cadeira tombou com violência. O mundo virou de ponta-cabeça: teto enferrujado, chão frio, ferrugem, eco de metal. Jonathan perdeu o equilíbrio. Senti o cano da arma deslizar da minha têmpora, frio, úmido de suor, mas longe. E um disparo logo em seguida.
Eu não quis saber quem tinha sido atingido. Fechei os olhos com força e esperei que a minha loucura surtisse qualquer efeito. Eu não queria descobrir que Jonathan já tinha se recuperado. Que estava de pé. Eu esperava que o fim daquele tormento tivesse chegado.
E então o grito do Cássio chamou minha atenção.
Abri os olhos.
Ele estava em cima de Jonathan. Punhos descendo como martelos. Não era luta treinada. Não era controle. Era ódio puro, animal, saindo em cada soco. André segurava os braços de Jonathan, mas era Cássio quem batia. Batia como se quisesse apagar a existência dele do mundo. A arma tinha deslizado metros pelo concreto. Inútil agora.
Eu comecei a chorar sem som. Lágrimas quentes escorrendo pelo rosto sujo. A cadeira ainda me prendia. Tentei me mexer, mas o corpo tremia tanto que os dentes batiam. Então senti.
As mãos dele.
Quentes. Firmes. Tremendo tanto quanto as minhas. No meu rosto.
“Branca. Olha pra mim. Olha pra mim, por favor.”
Eu olhei. Só pra ele. O resto do galpão podia desabar, pegar fogo, sumir. Eu só via aqueles olhos castanhos, vermelhos de raiva e de alívio e de um amor tão grande que doía olhar.
Ele rasgava as cordas com uma faca que alguém entregou. Os dedos dele tremiam, cortavam a pele dele também, mas ele não parava. Ali perto, um policial falava alguma coisa sobre ambulância, perícia, protocolo. Eu não ouvia. Só ouvia a respiração dele, pesada, entrecortada.
“Cássio…” Minha voz saiu fina, quase nada. “Eu… eu devia ter te ouvido. Eu achei que…”
Ele segurou meu rosto com as duas mãos. Firme. Como se eu fosse desmoronar se ele soltasse.
“Acabou.” A voz dele estava rouca, arranhada de emoção contida. “Acabou, amor. Acabou de verdade.”
Eu queria acreditar. Queria tanto que o peito doía.
As cordas finalmente cederam. Ele me puxou contra o peito dele. O abraço foi forte demais. Quase violento. Desesperado. Eu senti o coração dele martelando contra o meu. Senti o cheiro de pólvora grudado na camisa dele, misturado com o perfume que eu conhecia de cor. Senti o tremor que ele tentava esconder, os músculos rígidos de quem tinha segurado o mundo inteiro pra não desabar.
Ele me beijou. Não foi delicado. Não foi romântico de filme. Foi urgente. Faminto. Como se precisasse provar com a boca que eu ainda respirava, que meu coração ainda batia, que eu ainda era dele. Os lábios dele tremiam contra os meus. Eu retribuí com a mesma fome. Porque eu também precisava ter certeza. De que ele estava vivo. De que nós dois estávamos.
Alguém tocou no ombro dele. “Precisamos levá-la para os cuidados médicos.”

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