André
Bato com os nós dos dedos na porta antes de entrar, mas já sei exatamente o que vou encontrar do outro lado. Eles estão sentados na cama hospitalar, próximos demais para quem acabou de sair do inferno, ele com o braço enfaixado e ela com o rosto ainda marcado pelos cortes e pelo inchaço. Estão se beijando com cuidado, devagar, como se estivessem reaprendendo a ocupar o mesmo espaço sem medo de que tudo desabe de novo. Sorrio de lado, sem conseguir evitar.
“Eu sei que estou atrapalhando.”
Eles se afastam devagar, sem pressa ou vergonha. Cássio mantém a mão firme na dela, como se soltasse e ela pudesse sumir. Branca ainda tem lágrimas nos cantos dos olhos, mas o rosto está mais leve do que antes.
Me aproximo da cama, paro ao lado deles e falo baixo, tentando manter a voz firme mesmo que por dentro eu sinta o peito apertado: “Irmã… acabou. De verdade. Pode ficar tranquila agora. Graças a Deus esse pesadelo terminou.”
Ela prende a respiração por um segundo, como se precisasse ouvir de novo para acreditar.
“Jonathan está preso”, continuo. “E não sai tão cedo, se é que saí depois de hoje. Não é só o que ele fez com você. Tem tráfico, porte ilegal de armas, sequestro, tentativa de homicídio… ele se enterrou sozinho com tanta coisa acumulada. O promotor já está montando o processo. É o fim da linha pra ele.”
Vejo o alívio atravessar o rosto dela como uma onda lenta: os ombros caem, o peito desce em uma expiração longa, e os olhos se enchem de uma paz que eu não via desde antes de tudo começar. Cássio aperta a mão dela com mais força, um gesto silencioso de apoio, e eu prossigo antes que o silêncio fique pesado.
“Conversei com o médico agora há pouco. e você vai ter alta amanhã cedo. Eles só querem observar mais uma noite, garantir que você está bem por dentro também, emocionalmente, fisicamente, tudo. Nada de pressa.”


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