Cássio
O comboio saiu do prédio como se o asfalto tivesse sido rasgado por dentro. Duas viaturas cortando a frente, luzes azuis e vermelhas cortando a noite. O carro da polícia logo atrás, blindado, pesado. E eu no meio. Preso. Como se o mundo inteiro tivesse decidido me esmagar entre metal e sirenes.
Eu não dirigia. Meu corpo dirigia. As mãos cravadas no volante, os nós dos dedos tão brancos que pareciam osso exposto. Eu apertava forte demais. Se soltasse, achava que tudo ia desabar. O silêncio dentro do carro era pior que qualquer grito. Cada respiração parecia roubar oxigênio de alguém.
André ao meu lado. Não olhava pra mim. Olhava pra frente, como se pudesse ver através do para-brisa o que estava acontecendo lá dentro do galpão. Ele abriu a boca três vezes. “Ele precisa dela viva.” A mesma frase. A mesma voz baixa, quase mecânica. Na terceira vez eu quase virei pra ele e gritei que calasse a boca. Mas não gritei. Porque, se abrisse a boca, o que sairia seria um uivo. E eu não podia me permitir isso. Não agora.
Minha cabeça estava lá. Não aqui, no carro. Lá dentro. Branca amarrada numa cadeira fria. Braços torcidos pra trás. Cordas cortando a pele. Olhos inchados de choro. Corpo tremendo de frio e de terror. Sozinha. Com ele. Jonathan. A imagem dele perto dela era como ácido na mente. Se ele encostar um dedo nela. Se ele respirar perto demais. Se ele sorrir daquele jeito torto enquanto aponta a arma. Eu arranco a vida dele com as unhas. Com os dentes. Com qualquer coisa que eu tiver nas mãos.
Fechei o punho até sentir a palma rasgar. Sangue quente escorreu entre os dedos. Eu nem pisquei.
Minha mente estava me pregando peças pior do que estava acontecendo no real.
As luzes da rodovia foram ficando pra trás. O asfalto acabou. Entramos na estrada de terra. Buracos. Poeira subindo como fumaça. Faróis desligados. O mundo virou um borrão cinza-escuro. Só o ronco baixo dos motores e o estalo dos pneus na brita.
“Reduzam velocidade. Daqui pra frente é tático”, veio a voz cortante no rádio. Como se vidas não estivessem em jogo.
Eu já sentia o peito rasgando por dentro. O ar não entrava direito. Cada inspiração era curta, rasa, dolorida. Queria abrir a porta e correr. Correr até os pulmões explodirem. Gritar o nome dela até a voz sumir. Mas eu fiquei. Porque sabia que se entrasse sozinho agora, morreria antes de chegar perto dela. E ela morreria logo depois.
O galpão surgiu na escuridão como uma coisa viva. Estrutura torta de metal enferrujado. Telhado afundado em alguns pontos. Uma luz suja, amarelada, vazando pelas frestas das janelas quebradas.
Meu coração disparou tão forte que doeu no peito. Eu sentia cada uma delas na garganta, nas têmporas, nos ouvidos. Um tambor de guerra dentro do crânio.
“Esperem. Vamos averiguar o perímetro primeiro”, o comandante falou pelo rádio. Calmo. Como se tivesse todo o tempo do mundo.
Esperar? Minha mão já estava na maçaneta. Abri a porta com força. O ar frio da noite bateu no rosto como tapa.
Dois seguranças me agarraram pelos braços. “Senhor, não. Ainda não.”
“Ela está lá dentro.” Minha voz saiu quebrada, rouca, irreconhecível. Parecia vir de outra pessoa.
André segurou meu outro braço. Firme. Baixo, quase colado no meu ouvido: “Se você entrar agora, morre. E ela morre com você. Se acalma, Cássio. Por ela.”
Eu queria empurrar ele. Queria socar a cara dos dois. Queria correr até o galpão e arrancar a porta com as mãos. Mas eu fiquei parado. Olhos grudados na estrutura enferrujada. Cada segundo que passava era uma eternidade.
Um policial com binóculo: “Movimentação. Lateral direita. Janela quebrada.”
Meu sangue virou gelo em segundos.
Eu vi. Uma sombra. Rápida. Deslizando atrás do vidro estilhaçado. Como um fantasma com pressa.
“Calor interno confirmado. Alvo está no interior. Uma pessoa armada. Possível refém.”
O cerco começou a se fechar. Carros se posicionaram em semicírculo. Homens desceram em silêncio. Coletes pretos. Armas erguidas. Movimentos precisos, treinados.
Um colete voou na minha direção. Outro pra André. “Vocês ficam atrás da linha.”
“Não.” Minha voz saiu baixa. Mas não tremia mais.
“Isso é procedimento padrão.”
“Ela é minha mulher.”
Silêncio. Dois segundos inteiros de silêncio absoluto. O comandante me encarou. Olhos duros. Depois jogou o colete contra meu peito com força.
“Se entrar, entra atrás da equipe de busca. Sem heroísmo. Sem improvisação. Entendido?”
Eu já estava vestindo. O velcro rasgando o silêncio. “Não prometo nada.”
A invasão explodiu em segundos.


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