Branca
A casa estava silenciosa de um jeito bom, daqueles silêncios que não pesam, que apenas existem para deixar os pequenos sons da vida se destacarem. Peças de quebra-cabeça se encaixando com cliques suaves, risadinhas abafadas que escapavam da boca de Aelyn toda vez que ela “roubava” uma peça do pai, a voz grave de Cássio fingindo indignação dramática: “Ei, mocinha, isso é trapaça! Vou chamar a Interpol!” A menina ria mais alto, jogando a cabeça para trás, e eu sentia o peito se expandir como se o ar dentro de mim tivesse ficado maior de repente.
Eu estava sentada no sofá, um livro aberto no colo, algum romance leve que eu nem lembrava mais do título, mas meus olhos paravam na mesma página há pelo menos cinco minutos. Não era distração. Era contemplação. O sol entrava pela janela da sala, aquecendo o chão de madeira clara, pintando listras douradas no tapete. Na mesa de jantar, eles dois estavam concentrados na montagem do quebra-cabeça de mil peças. Um castelo medieval que Aelyn tinha escolhido porque “parece que tem dragão escondido”. Cássio deixava ela decidir onde cada peça ia, mesmo quando estava errado, só para ver o orgulho dela quando algo se encaixava por acidente.
Aquilo parecia uma vida que eu nunca tinha sonhado em ter.
Não porque fosse perfeita, eu sabia que não era. Tinha noites em que eu acordava suando frio, lembrando de vozes antigas, de portas batendo, de silêncios que machucavam mais que gritos. Mas era uma vida minha. Escolhida. Construída devagar, tijolo por tijolo, com pessoas que me olhavam como se eu fosse suficiente exatamente do jeito que eu era. E, ainda assim, uma parte de mim ainda se perguntava, em voz baixa: como eu mereci isso? Como eu mereci acordar todo dia sem medo de que o chão sumisse debaixo dos meus pés?
Meu celular vibrou na mesinha de centro.
Era a Laís.
Sorri antes mesmo de atender.
“Oi, advogada ocupada.”
Ela começou do jeito de sempre: sondando terreno com perguntas banais que eram tudo menos banais. Se eu estava comendo direito. Se estava dormindo sem remédio. Se Cássio estava me tratando bem. Se “a parte prática da reconciliação” estava satisfatória e aí veio o tom malicioso que me fez revirar os olhos e rir ao mesmo tempo.
“Você é impossível.”
“Eu sou uma amiga dedicada”, rebateu ela, sem um pingo de vergonha.
Levantei do sofá e caminhei até a varanda externa, fechando a porta de correr atrás de mim para ter um pouco mais de privacidade. Lá dentro, vi Cássio fazer uma careta exagerada para Aelyn, que respondeu com uma gargalhada tão pura que meu peito aqueceu instantaneamente. Apoiei os cotovelos no parapeito, o sol batendo no rosto, e continuei a conversa.
Laís estava estranha.
Ria… mas a risada vinha curta, cortada, como se estivesse escondendo algo atrás dela.
“E você?”, perguntei, franzindo a testa mesmo sabendo que ela não podia ver. “Quais são as novidades de verdade?”
Ela fez uma pausa.
“Nada. O mesmo de sempre.”
Outra pausa. Mais longa.
“Mas o que eu tenho pra te contar agora… é da parte da Laís advogada. Então vou trocar de papel.”
Ri, nervosa.
“Isso me dá medo.”
“Não precisa”, ela disse, mas a voz ficou mais séria, mais profissional. “O divórcio foi concluído. Você e Jonathan estão oficialmente separados. Finalmente, a sentença saiu. Acabou, amiga.”
O mundo ficou em silêncio.
Não o silêncio da casa. Um silêncio absoluto, como se o ar tivesse sido sugado para fora dos pulmões. Levei a mão à boca, os olhos se enchendo de lágrimas antes mesmo que eu pudesse processar.
“Você tem certeza?”
“Absoluta. Eu mesma chequei o andamento hoje cedo. Está no sistema. Finalizado.”
As lágrimas vieram quentes, silenciosas, escorrendo pelo rosto sem alarde. Não eram dramáticas. Eram profundas, antigas, como se tivessem esperado anos para finalmente cair. Meus joelhos cederam. Me ajoelhei ali mesmo na varanda, o telefone ainda grudado na orelha, o corpo tremendo de um jeito que não era frio.
Era como se alguém tivesse finalmente tirado um peso invisível das minhas costas. Um peso que eu carregava há tanto tempo que nem lembrava mais como era andar sem ele.
Acabou.
Acabou de verdade.
Cássio apareceu na porta de correr em segundos, como se tivesse sentido o ar mudar. Se abaixou na minha frente, segurando meu rosto entre as mãos grandes e quentes, os polegares limpando as lágrimas que não paravam.
“Branca, o que foi? Você está bem?”



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