Jonathan
A notificação piscou na tela às 10h17 em ponto, como se o universo tivesse marcado hora para me dar o golpe final.
“Processo de divórcio finalizado. Trânsito em julgado.”
Li uma vez. Duas. Três.
A palavra “finalizado” parecia uma piada de mau gosto. Pequena, burocrática, incapaz de carregar o peso do que estava realmente acontecendo. Finalizado. Como se fosse só mais um processo arquivado, mais uma linha riscada em uma planilha. Como se Branca tivesse simplesmente assinado um papel e apagado dez anos da minha vida com uma caneta esferográfica.
Soltei uma risada seca, sem som, que arranhou a garganta.
“Não. Eu comprei aquele Juiz, ele não iria...”
A mão apertou o celular com tanta força que senti os ossos dos dedos protestarem. A tela rachou de leve sob a pressão, mas eu nem notei.
Finalizado significava que ela não era mais minha esposa.
Significava que ela tinha conseguido sair.
Sem implorar, sem o meu consentimento. Aquela desgraçada tinha ganhado de mim.
A mandíbula travou tão forte que doeu. Caminhei até a janela do escritório no vigésimo andar, olhando a cidade lá embaixo como se ela me devesse alguma explicação. O reflexo no vidro me devolveu um homem impecável: terno cinza escuro feito sob medida, gravata perfeitamente alinhada, cabelo penteado para trás, expressão controlada.
Por fora.
Por dentro, algo estava rachando.
Ela achava que tinha vencido.
Achava que podia simplesmente reconstruir a vida, amar outro homem, brincar de família feliz com aquela criança que nem era dela de sangue, mas que ela tratava como se fosse o centro do universo. Brincar. Como se tudo aquilo fosse um jogo que ela tinha o direito de ganhar.
O celular voou antes que eu pudesse raciocinar. Acertou a parede com um estalo seco, a tela estilhaçando em teias de aranha. O som ecoou no escritório vazio como um tiro.
Respirei rápido demais. O peito subia e descia como se eu tivesse corrido uma maratona.
“Você acha que acabou?”, murmurei para o vazio, voz baixa, quase carinhosa.
A mesa foi a próxima vítima. Papéis voaram em uma chuva desordenada. Uma pasta grossa caiu aberta no chão. O porta-retratos que eu ainda mantinha na gaveta, nós dois em Paris, sorrindo como idiotas felizes, escorregou e se partiu ao meio. O vidro quebrou com um estalo limpo.
Me abaixei devagar.
Peguei o maior pedaço.
O sorriso dela na foto parecia debochado agora.
“Você sempre foi ingrata”, sussurrei, passando o polegar no rosto dela, como se pudesse apagar a imagem. "Sempre quis demais, docinho. E acha mesmo que eu vou deixar por isso mesmo?"
O surto passou tão rápido quanto veio.
E isso era o mais perigoso de tudo.
Porque quando a raiva vira silêncio, ela deixa de ser emoção e vira estratégia.
Endireitei o corpo. Ajeitei o paletó com movimentos precisos, como se estivesse me preparando para uma reunião. Respirei fundo uma, duas vezes. O coração ainda batia forte, mas agora o ritmo era controlado. Calculado.
Peguei o celular reserva da gaveta, o que eu mantinha exatamente para momentos como esse e liguei.
A ligação foi atendida no segundo toque.
“Preciso que você levante tudo”, falei, voz calma, quase amigável. “Endereço atual. Rotina diária. Quem entra. Quem sai. Horários de trabalho dele. Escola da criança. Tudo. Além dela, quero do irmão e da mãe também.”
Uma pausa do outro lado.


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