Branca
O abraço dele me segurava como se o mundo inteiro tivesse tentado me derrubar por anos e, finalmente, alguém tivesse decidido que eu não cairia mais. Meu rosto ainda estava molhado, minhas mãos tremiam com aquela mistura de alívio e incredulidade, e o ar parecia diferente dentro do peito, como se eu tivesse desaprendido a respirar leve e estivesse aprendendo agora.
Cássio afastou só o suficiente para me olhar. Não foi um olhar rápido, não foi aquele tipo de olhar que pergunta “você tá bem?” e já corre para resolver outra coisa. Foi um olhar que fica. Que enfrenta. Que se demora, como se o tempo fosse um favor.
“Eu falei sério”, ele disse, baixinho, como se estivesse confirmando algo que eu ainda não tinha coragem de acreditar.
Eu engoli em seco.
Mesmo assim, ali estava Cássio, fazendo uma promessa sem pedir nada em troca, sem exigir que eu fosse perfeita para merecer.
Ele puxou o ar, como se também estivesse nervoso. E eu percebi que aquilo não era fácil para ele. Cássio era grande, firme, parecia sempre pronto para proteger, para segurar, para lutar. Mas naquele momento… ele estava exposto. Não fraco. Exposto. Que é diferente.
“Eu sei que é cedo. Eu sei que você acabou de se livrar de um peso enorme”, ele começou, e a voz dele saiu mais rouca, carregada de verdade. “Mas… Branca, eu não quero esperar mais. Não quero que você ache que isso é só uma fase, ou que eu estou aqui por pena, ou por qualquer outra coisa que não seja porque eu te amo.”
Meu coração deu um salto tão forte que doeu. E não foi um “doeu” ruim. Foi aquele tipo de dor que aparece quando a felicidade chega grande demais e o corpo não sabe onde encaixar.
Ele continuou, como se tivesse segurado aquilo por meses e agora estivesse finalmente soltando, palavra por palavra, sem pressa, sem teatro.
“Te amo com as cicatrizes, com as noites ruins, com as manhãs em que você acorda sorrindo. Te amo com tudo o que você é agora, e com tudo o que você ainda vai ser.”
As lágrimas voltaram na hora, mas eram diferentes. Não tinham gosto de desespero. Não tinham aquele peso de humilhação que eu aprendi a engolir durante anos. Eram lágrimas limpas. Quase doces. Como se meu corpo estivesse lavando uma parte velha de mim.
“Você tá falando sério?”, perguntei, mesmo sabendo que eu já tinha a resposta. Eu só precisava ouvir de novo. Precisava que ele dissesse mais uma vez para a parte de mim que ainda desconfiava de coisas boas.
Cássio pegou minha mão esquerda e levou aos lábios. Beijou os nós dos meus dedos com um cuidado absurdo, como se eu fosse um cristal raro que ele tinha encontrado na areia.
“Mais sério do que qualquer coisa que eu já disse na vida.”
Eu ri, chorando, tremendo, e me joguei nos braços dele de novo. Porque era isso ou eu ia desmanchar ali mesmo, no meio da varanda, como uma folha seca.
“Você é louco”, murmurei contra o peito dele.
“Sou”, ele respondeu, e eu senti o sorriso dele no meu cabelo. “Louco por você.”
Lá dentro, Aelyn gritou com toda a autoridade dramática de uma criança que acabou de conquistar um reino:
“Pai! A gente terminou o castelo! Vem ver!”
A voz de Aelyn atravessou a sala com aquele entusiasmo que só as crianças têm quando acreditam que construíram algo grandioso. E, de certa forma, ela tinha mesmo.
Cássio riu baixinho contra o meu cabelo, o som vibrando no peito dele antes de chegar em mim. Não havia surpresa na reação dele, só aquele orgulho tranquilo de pai que se reconhece na felicidade da filha.
“Ela sempre tem o timing perfeito”, ele sussurrou, a boca quase encostada na minha têmpora. “Acho que eu preciso ir lá antes que ela venha aqui me puxar pela camisa e diga que eu não estou valorizando a obra-prima dela.”
Eu sorri, ainda com os olhos úmidos.
Ele era pai antes de qualquer coisa. E isso nunca me intimidou. Pelo contrário. Era uma das coisas que mais me faziam querer ficar.
Eu me afastei só o suficiente para olhar para ele de verdade.
Não como eu olhava para homens antes. Mas olhando para enxergar quem ele era quando não estava defendendo ninguém, quando só estava… sendo.
Os olhos castanhos dele estavam mais suaves do que eu já tinha visto. Um pouco vermelhos, talvez da emoção, talvez de tudo o que ele tinha guardado por tempo demais. O sorriso torto estava ali, aquele que aparecia só quando ele baixava as defesas. E as mãos dele ainda estavam na minha cintura, firmes, quentes, não como posse, mas como presença.
Senti minha respiração desacelerando.
Senti o sol tocando meu rosto.
Senti o som de Aelyn lá dentro, reorganizando as peças do quebra-cabeça como se estivesse ajustando o próprio mundo.
Eu não precisava responder agora. Ele tinha deixado isso claro no jeito que falava, no espaço que me dava. “Você não precisa decidir nada hoje.” Ele não disse exatamente essas palavras, mas eu ouvi mesmo assim.
“Sim”, eu falei.
Cássio piscou, surpreso, como se não tivesse esperado que eu respondesse tão rápido.
“Sim?”, ele repetiu, com cuidado, como se tivesse medo de que a palavra quebrasse.
“Sim.” Minha voz saiu baixa, mas firme. Eu senti cada letra. “Eu quero ser a senhora Ravelli. Quero casar com você. Quero construir isso tudo com você.”
Minha garganta apertou, e eu respirei fundo, porque eu não queria chorar de novo. Mas chorei mesmo assim.
“Quero acordar todo dia sabendo que você está aqui”, continuei, e o mundo ficou pequeno, só nós dois. “Que Aelyn está aqui. Que isso é real. Que não é um sonho que alguém vai arrancar da minha mão.”

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