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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 123

Laís

Saí do aeroporto ao lado dele sem dizer uma palavra, mas o silêncio não era pesado, era daqueles cheios de eletricidade, do tipo que faz a pele formigar antes mesmo de qualquer toque. André carregou as malas como se fossem frágeis, colocando-as no porta-malas com um cuidado exagerado, quase cômico, como se qualquer batida pudesse estilhaçar o que quer que estivesse se formando entre nós. Eu entrei no carro e fechei a porta devagar demais, sentindo o clique ecoar no peito.

Ele deu partida. O motor ronronou baixo, e começamos a sair do estacionamento. O nó no meu estômago apertou, mas não era medo ruim. Era expectativa misturada com um frio gostoso na barriga, aquele medo delicioso de quem sabe que está pulando de um penhasco e querendo cair de olhos abertos.

“Se um dia você puder me apresentar de verdade pra Morrow…”, comecei, olhando fixo para o para-brisa, fingindo que a avenida era a coisa mais interessante do mundo. “Eu ficaria muito grata.”

Ele manteve os olhos na pista, mas eu vi o maxilar dele tensionar de leve.

“Por quê?”

“Eu penso em um dia ir pra promotoria”, continuei, tentando soar profissional. “E seria bom ter a visão dela. Ouvir como foi o caminho. Ela parece… inspiradora.”

O silêncio dele durou meio segundo a mais do que o normal. Foi o suficiente para que algo dentro de mim estalasse.

Me virei no banco, de frente para ele, joelho dobrado no assento.

“Vocês já tiveram alguma coisa?”

André me olhou rápido, surpreso, depois voltou os olhos para a rua.

“Por que você está perguntando isso agora?”

Dei de ombros, tentando soar casual. Falhei miseravelmente.

“Sei lá. Ela estava tão… interessada em você. Tipo, ‘me liga quando quiser’. Clássico.”

Respirei fundo, sentindo o rosto esquentar.

“E, de verdade… quem não ficaria? Ela é linda, inteligente, tem aquele ar de quem domina qualquer sala. Eu mesma ficaria se gostasse da fruta.”

Ele soltou um riso curto, quase incrédulo, e balançou a cabeça.

“Ainda bem que você não gosta. Você não conhece a Emily.”

“Conheço a reputação.”

“Não. Você conhece a imagem”, corrigiu, voz baixa, mas firme. “As pessoas por fora são uma coisa. Por dentro… outra história.”

Ele fez uma curva suave e continuou:

“Ela foi próxima, sim. Mas a Emily passa qualquer um pra trás quando quer alguma coisa. E comigo não foi diferente.”

Meu coração deu um salto traiçoeiro, alívio puro, misturado com uma pontinha de ciúme que eu nem queria admitir.

“Como assim?”

Ele parou no semáforo vermelho e virou o corpo um pouco para mim, apoiando o braço no encosto do meu banco. O espaço entre nós diminuiu de repente.

“Você me disse que não queria que ninguém achasse que eu te ajudei na carreira”, falou, olhos fixos nos meus. “Com ela era o oposto. Ela usava todo mundo que podia como degrau. Inclusive eu.”

Meus olhos se arregalaram.

123. Nosso novo normal 1

123. Nosso novo normal 2

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