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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 122

André

O aeroporto estava um caos organizado, como sempre: rodinhas de malas ecoando no piso frio, anúncios metálicos se sobrepondo uns aos outros, gente correndo como se o mundo fosse acabar se perdesse o voo. Eu caminhava ao lado de Laís, mas havia um espaço entre nós que não era só físico. Era uma espécie de cautela silenciosa, um medo mútuo de tocar no assunto que pairava sobre nossas cabeças como uma nuvem pesada.

Um casamento em Las Vegas. Uma certidão que eu ainda não conseguia acreditar que existia. Uma ressaca emocional que batia mais forte que qualquer dor de cabeça. E, no meio de tudo isso, o rosto dela. Laís estava quieta demais, pensativa demais, olhando para o chão como se tentasse encaixar uma peça que se recusava a entrar no quebra-cabeça. E um pensamento idiota, insistente, começou a me cutucar por dentro: será que era tão ruim assim estar casada comigo?

Afastei a ideia na hora. Ridícula. A gente nem sabia direito o que significava estar casado. Não tinha sentido sofrer por algo que ainda era só um pedaço de papel e uma aliança que queimava no dedo.

Chamaram nosso embarque.

Entramos no avião em silêncio. Ela escolheu a janela, eu o corredor. O braço dela roçava de leve no meu toda vez que o avião balançava, mas nenhum de nós se mexia para aumentar ou diminuir o contato. Era como se estivéssemos testando os limites do que ainda era permitido.

Então, sem aviso, ela encostou a cabeça no meu ombro.

Foi simples. Natural. Como se o corpo dela tivesse decidido antes da mente que era seguro ali. Eu senti o calor do cabelo dela contra minha camisa, o cheiro sutil do xampu que ainda carregava o perfume da noite anterior. Sorri sem conseguir evitar. Peguei a mão dela devagar, entrelaçando nossos dedos. O encaixe foi perfeito demais para uma situação tão absurda.

“E agora?”, ela perguntou, voz baixa, quase um sussurro contra meu ombro.

Respirei fundo, sentindo o peito apertar.

“Eu não sei”, admiti, sincero. “Mas não precisamos contar pra ninguém. Pelo menos não agora. Até a gente entender o que isso significa de verdade.”

Ela ficou quieta por um instante, depois apertou meus dedos de leve.

“Vamos manter entre a gente”, continuei. “Do mesmo jeito que estava antes. Sem pressão. Sem cobrança.”

Parei um segundo, engolindo seco.

“Vou respeitar seu espaço. Sempre. Mas… de verdade, Laís… eu não quero que você se afaste.”

Ela se mexeu um pouco, levantando o rosto para me olhar. Os olhos castanhos estavam vulneráveis, sem a armadura profissional que ela usava no escritório.

“Eu gosto de quem eu sou perto de você”, falei, voz mais baixa ainda. “Gosto da Laís que ri alto no cassino, que corre descalça pela rua, que não tem medo de ser bagunçada. E eu queria… tentar fazer isso dar certo. De verdade.”

Ela me encarou por longos segundos. O avião decolou, o ronco dos motores preenchendo o silêncio, mas nada disso importava.

Então eu a beijei.

Não foi impulso. Não foi desejo descontrolado. Foi calmo, deliberado, como se aquele beijo fosse a única resposta honesta que eu tinha para dar naquele momento. Lábios macios, respiração misturada, um suspiro dela que escapou contra minha boca. Quando nos afastamos, ela respirou fundo, os olhos brilhando um pouco mais.

“Eu prometo que vou tentar”, disse, voz rouca. “Mas eu não quero que digam que eu só cresci na carreira porque estamos juntos. Ou porque você me deu alguma vantagem. Eu lutei muito pra chegar onde estou, André. E ainda tenho um caminho longo pela frente.”

Assenti imediatamente, passando o polegar no dorso da mão dela.

“Eu sei. E eu nunca faria isso com você. Nunca.”

Inclinei a cabeça e beijei a testa dela, demorando um pouco mais do que o necessário.

"Tudo bem então, podemos tentar devagar e com calma."

“Não se preocupe, senhora Bayron”, falei, sem pensar, o tom leve, quase brincalhão.

As palavras saíram naturais demais.

Ela arregalou os olhos. Eu também.

Por um segundo ficamos nos olhando, atônitos, e então rimos. Rimos baixo, contido, como dois adolescentes que acabaram de aprontar a maior besteira da vida e descobriram que, no fundo, não queriam desfazer. O riso aliviou o peso, transformou o absurdo em algo quase doce.

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