Laís
Fiquei parada olhando para a certidão como se ela pudesse explodir a qualquer momento. O papel era fino, quase ridículo de tão leve, mas pesava uma tonelada na minha mão trêmula. Oficial. Assinado. Carimbado. Meu nome ao lado do dele. Laís Bayron. Eu, casada. Com André. Em Las Vegas.
Minhas pernas pareciam feitas de gelatina. Caminhei de volta até a cama devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse acordar o universo inteiro e gritar "vocês são idiotas!". André dormia de lado, cabelo todo bagunçado caindo na testa, expressão de paz absoluta que me deu vontade de jogar um travesseiro na cara dele. Como alguém consegue dormir depois de virar a própria vida de cabeça para baixo?
Sentei de joelhos no colchão e cutuquei o ombro dele com urgência, como se estivesse cutucando uma bomba-relógio.
"André."
Nada.
"André, acorda."
Ele resmungou algo que soou como "cinco minutos" misturado com um grunhido de urso hibernando. Virou de barriga para cima, esfregou o rosto e abriu um olho. Depois o outro. Me viu. Piscou devagar.
"Onde está tendo... incêndio?", murmurou, voz grossa de sono e ressaca, um sorriso preguiçoso já se formando no canto da boca. "Ou você só queria me acordar pelada pra repetir a dose?"
Bati no braço dele com força suficiente para fazer barulho.
"Para com isso, seu idiota!"
"Ei, ei", ele riu, fechando os olhos de novo por um segundo como se aquilo fosse só mais uma brincadeira matinal. "Relaxa, Laís. Ninguém vai saber que a gente transou aqui. Já entendi o seu esquema de 'nada aconteceu'."
Respirei fundo. Tão fundo que senti o ar raspar na garganta.
"André..." Minha voz saiu firme demais para quem estava tremendo por dentro. "A gente fez uma loucura."
Ele abriu os olhos de vez. O sorriso sumiu devagar.
"Vegas é isso. Todo mundo faz loucura."
"Não esse tipo de loucura."
Ele franziu a testa, sentando um pouco mais reto.
"Que tipo?"
Engoli em seco. Meu estômago estava tentando fugir pela boca.
"A gente se casou."
O silêncio que caiu foi tão pesado que eu ouvi o ar-condicionado ligando no quarto ao lado. André ficou me encarando como se eu tivesse falado em outra língua. Piscou. Piscou de novo.
"O quê?"
"A gente se casou ontem à noite", repeti, voz saindo mais alta do que pretendia.
Levantei num pulo, peguei a certidão na mesinha e estendi para ele como se fosse prova de crime.
Ele pegou o papel. Leu. Leu de novo. O rosto dele perdeu toda a cor em câmera lenta.
"Isso... isso não é possível."
Sentei na cadeira em frente à cama, as pernas bambas demais para ficar em pé.
"Aparentemente é."
Ele passou a mão pelo rosto inteiro, como se pudesse apagar a realidade. Depois olhou para a própria mão esquerda. A aliança brilhava ali, discreta, inocente, como se nada tivesse de errado.
Ele se levantou num pulo. O lençol caiu. Ele estava nu. Eu também. Nós dois congelamos por meio segundo, percebendo o óbvio ao mesmo tempo.
"Ah, meu Deus", ele murmurou, pegando o lençol de volta como se fosse escudo. "A gente não seria tão doido de..."
Parou. Porque sim. Tínhamos sido.


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