Laís
Acordei sem abrir os olhos.
O primeiro som que invadiu foi o mundo lá fora: portas batendo no corredor, rodinhas de mala arranhando o carpete, buzinas distantes misturadas ao ronco constante da cidade que nunca dorme. Vegas acordando sem pedir licença, como se soubesse que eu precisava de barulho pra me lembrar que ainda estava viva. Meu corpo inteiro doía, uma dor boa, pesada, daquelas que contam história. Cabeça latejando devagar. Boca pastosa. E uma sensação estranha, quente, de… não estar sozinha na cama.
Meu cotovelo roçou em algo firme. Quente. Vivo.
Congelei.
O coração disparou antes mesmo de eu conseguir raciocinar. Abri os olhos de repente, a luz filtrada pelas cortinas grossas me acertando como um flash.
André.
De lado, respirando calmo, o peito subindo e descendo em ritmo lento, quase hipnótico. O lençol embolado na cintura dele, revelando a linha dos músculos do abdômen, a pele marcada por arranhões leves que eu mesma tinha deixado. O cheiro dele, amadeirado, suor, misturado ao meu perfume que ainda grudava na pele dele , invadiu meu nariz e desceu direto pro estômago, apertando tudo.
“Não…”, murmurei pra mim mesma, voz rouca de sono e de tudo o que tinha acontecido. “Não pode ser.”
Fechei os olhos de novo, forte, como se pudesse apagar a realidade. Mas a memória veio em flashes violentos, rápidos, sem piedade.
O cassino. Luzes explodindo em mil cores. O som das máquinas caça-níqueis como chuva metálica. Eu rindo alto demais, errando apostas de propósito só pra ver ele rir junto. Me pendurando no braço dele, no ombro, no pescoço, toques que começaram inocentes e viraram fome. Ele me olhando como se eu fosse a única coisa no mundo que importava. Sem tentar me consertar. Sem tentar controlar. Só… presente. E eu amei aquilo. Amei ser bagunçada, solta, sem medo de julgamento.
Depois a corrida. Eu descalça na calçada iluminada, vestido subindo, gritando “você não me pega!” como uma adolescente louca. Ele correndo atrás, rindo, me alcançando com facilidade absurda. As mãos grandes me erguendo do chão, me girando no ar, me chamando de maluca enquanto eu batia no peito dele de brincadeira. E então o beijo. O primeiro beijo de verdade daquela noite. Quente. Desesperado. Línguas se encontrando como se tivessem esperado anos. Quando nos afastamos, eu ainda tremia.
“Não quero ir embora ainda”, sussurrei contra a boca dele.
Ele não discutiu.
“Então a gente não vai.”
Ele me levou até o carro alugado, e saímos sem rumo, cortando as ruas neon. A mão dele na minha coxa, subindo devagar, dedos traçando círculos que faziam meu corpo arquear sem permissão. Eu entreabri as pernas, convite silencioso, eu queria mais dele. O olhar dele escureceu, e a voz saiu rouca:
“Laís, Laís… Não me tenta, que amanhã você vai me ignorar de novo.”
Eu afastei a mão dele, mas só por teimosia.
“Para de falar besteira.”
Ele riu baixo.
“Você vai acabar me matando.”
E então a capela apareceu no nosso campo de visão.
"PARA AQUI! EU QUERO ASSISTIR O CASAMENTO!" Ele me olhou por um segundo e então fez o que eu pedi.
Queria só assistir. Só ver alguém se casando de forma ridícula, impulsiva, como se aquilo fosse uma piada. Ele disse que nunca tinha entrado numa capela de Vegas. Eu ri.
“Então esse é o nosso momento.”
Entramos. Assistimos. Aplaudimos os noivos como se fôssemos velhos amigos. Desejamos felicidade em voz alta, rindo de nervoso.
Depois passamos para a loja de presentes.
Eu olhava distraída entre as vitrines, vendo as bobeiras de Vegas e pensando se comprava alguma coisa para a Branca. Parei na frente das alianças. Uma delas, fina, delicada, uma pedra pequena brilhando discreta, chamou minha atenção.
“Gostou?”, ele perguntou, chegando por trás, peito colado nas minhas costas, queixo no meu ombro.
“Gostei”, respondi, voz baixa. “Uma pena que eu nunca vou casar.”
“Por quê?”
Dei de ombros, tentando soar leve.
“Quem se casaria comigo?”
Ele virou meu rosto com dois dedos. Me olhou nos olhos. Sem brincadeira.
“Eu casaria.”
O ar parou.


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