Laís
A palestra era insuportável.
O palestrante arrastava as palavras com uma monotonia que fazia o tempo parecer esticar como elástico velho, projetando slides lotados de texto minúsculo e gráficos indecifráveis que ninguém na plateia conseguia ler direito. Eu tentava prestar atenção, juro que tentava. Anotava fragmentos no tablet, sublinhava uma frase aleatória aqui e ali, mas minha mente escapava como areia entre os dedos. E quando o assunto era André, tudo perdia o foco com uma facilidade que me irritava profundamente.
Era como se ele tivesse instalado um ímã na minha cabeça, puxando todos os pensamentos para si, para aquele sorriso torto, para as palavras não ditas que pairavam entre nós desde aquela noite.
Eu ainda ouvia a voz dele ecoando no saguão do hotel: “À noite… sai comigo.” Baixa, confiante, como se fosse inevitável. E a minha resposta? Uma bobagem evasiva: “Se tiver uma palestra chata hoje, eu te respondo.” Como se eu precisasse de uma desculpa para ceder ao que eu já queria. Mas era isso que me assustava, o quanto eu queria. Depois de tudo, depois de me fechar como uma concha para proteger o que restava da minha sanidade profissional, ali estava eu, pensando nele no meio de um congresso que deveria ser o auge da minha carreira.
O que eu estava sentindo por André? Era uma bagunça. Uma mistura de raiva residual por ele ter me colocado nessa posição vulnerável, de atração que queimava como fogo baixo, e de um medo paralisante de que isso tudo desmoronasse nossas vidas. Ele era meu chefe, pelo amor de Deus. Ou quase isso. E aquela noite... tinha sido impulsiva, intensa, o tipo de erro que você comete sabendo que vai pagar caro. Mas agora, em Las Vegas, longe de olhares julgadores, eu sentia uma faísca de liberdade. Uma vontade de ignorar as regras, só por mais uma noite. Era perigoso, sim. Mas excitante. E se eu fosse honesta comigo mesma, eu não queria parar de sentir isso. Não ainda.
Suspirei baixo, conferindo se ninguém ao redor notava minha distração. Puxei o celular do bolso do blazer, abri o W******p. O nome dele estava no topo, como uma provocação. Digitei rápido, antes que o bom senso me impedisse.
“Só saio com você à noite se… me levar em um cassino. Eu nunca fui em um.”
Adicionei uma carinha triste no final, para suavizar. Enviei e fechei o celular na hora, como se tivesse lançado uma granada. Meu coração acelerou, um misto de empolgação e arrependimento. O que eu estava fazendo? Flertando abertamente? Mas era ele. André, com sua mania de controle, seu humor seco que me desarmava. Ele me fazia sentir viva, exposta, e ao mesmo tempo segura, como se ele soubesse exatamente onde pisar sem me machucar.
Dois segundos. Vibração.
Olhei de relance.
André: “Finalmente uma palestra chata, kkkk”
Coloquei a mão na boca para abafar o riso que escapou, sentindo o calor subir pelo rosto. Mordi o lábio, respondi sem pensar.
“Você é péssimo.”
Ele: “Péssimo, mas eficiente. Cassino? Fechado. Prometo o mais memorável de todos.”
Meu estômago deu um loop. Memorável. Como aquela noite? Eu ri baixinho, ignorando o palestrante que ainda discorria sobre jurisdição extraterritorial.
“Memorável como?”
Ele: “Do tipo que você vai contar pros netos. Ou pelo menos pro barman do hotel amanhã de manhã.”



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