André
"São dois congressos amanhã", respondi, mantendo o tom neutro, como se aquilo fosse a coisa mais casual do mundo. "Um pra você e um pra mim."
Ela piscou devagar, ainda processando a informação. O choque inicial deu lugar a uma mistura de incredulidade e algo que parecia irritação contida.
"E por que não falou nada. Eu achei... nossa, que idiota. Achei que confiava em mim."
Dei de ombros, ajustando o cinto de segurança.
"E confio, por isso está indo me representar. Os dois congressos são obrigatórios."
Laís soltou um suspiro curto, quase um riso sem graça, e virou o rosto para a janela. O avião já estava taxiando, o ronco dos motores preenchendo o silêncio entre nós. Ela cruzou os braços, os fones pendurados no pescoço como um colar esquecido.
"Você podia ter avisado."
"Podia", concordei. "Mas aí você ia inventar uma desculpa pra não ir. Ou pra trocar de voo. Ou pra me evitar."
Ela virou o rosto de volta pra mim, os olhos estreitados.
"Não é sobre evitar você. É sobre… manter as coisas profissionais."
"Ah, sim. Profissional."
O tom saiu mais seco do que eu pretendia. Ela apertou os lábios, mas não rebateu. O resto do voo foi assim: silêncio pontuado por esbarrões inevitáveis. O braço dela roçava no meu toda vez que ela se mexia para pegar algo na bolsa. Quando o carrinho de bebidas passou, eu pedi um café pra ela antes mesmo de ela abrir a boca. Preto, sem açúcar, exatamente como ela gosta. Ela pegou a xícara sem dizer nada, mas vi o canto da boca subir por meio segundo.
Na hora de descer do avião, a fila demorou mais do que o normal. Ela se levantou para pegar a mala de mão no bagageiro superior. Esticou o braço, mas o espaço era apertado e a mala estava enfiada no fundo. Antes que ela pudesse insistir, eu me levantei também, estendi a mão e tirei a mala com facilidade.
"Eu consigo", ela disse, já estendendo a mão para pegar.
"Eu sei que consegue." Coloquei a mala no chão ao lado dela, mas segurei a alça por mais um segundo antes de soltar. "Mas eu já tirei."
Ela bufou baixo, mas pegou a mala sem discutir mais. Caminhamos pelo corredor do aeroporto lado a lado, sem falar muito. Era estranho como nossos passos se sincronizavam naturalmente, mesmo depois de tudo. Como se o corpo se lembrasse do que a cabeça tentava esquecer.
No balcão do hotel, entreguei meu cartão e peguei as chaves. Quando o recepcionista entregou os dois cartões magnéticos, um do lado do outro, Laís estreitou os olhos pra mim.
"Quartos vizinhos, André? Sério?"
Dei um meio sorriso, o primeiro genuíno desde que entrei no avião.
"Coincidência conveniente. Ou incompetência da minha secretária, fica ao seu critério. Escolha o que preferir acreditar."
Ela balançou a cabeça, mas eu vi o riso reprimido nos olhos dela.
Chegamos tarde. O check-in foi rápido, o elevador silencioso. Nos despedimos no corredor com um "boa noite" seco e cada um entrou no seu quarto. Não trocamos mais nenhuma palavra.
Não que eu não quisesse, mas eu... eu queria manter as coisas profissionais, assim como ela.


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