Laís
Eu demorei mais do que o normal para sair da frente do espelho naquela manhã.
Não era vaidade. Era pânico disfarçado.
O vestido preto que eu tinha usado na noite anterior estava pendurado no cabide como uma prova do crime. Eu olhei pra ele duas vezes enquanto escolhia algo “seguro”: calça social cinza, blusa branca de manga comprida, blazer estruturado. Tudo certinho. Tudo profissional. Tudo gritando “nada aconteceu aqui”.
Mas aconteceu.
Eu tinha beijado o André.
E agora ele tinha me visto gemendo o nome dele enquanto gozava em cima dele.
Merda.
Respirei fundo, ajeitei o cabelo num coque baixo perfeito, passei batom nude (nada chamativo, nada que lembrasse a boca vermelha da noite anterior) e repeti o mantra mental:
“Profissional. Você é profissional. Foi só uma noite. Uma noite. Acabou.”
Dirigi até o escritório tentando ignorar as imagens que surgiam sem permissão: a mão dele na minha nuca, a boca dele no meu pescoço, o jeito como ele me olhou enquanto entrava em mim devagar, como se quisesse gravar cada segundo. Pior: o jeito como eu olhei de volta, como se quisesse que ele nunca parasse.
Cheguei cedo e evitei o caminho automático pela sala dele. Fui direto pra minha, fechei a porta com um clique rápido e me sentei como se aquilo fosse um escudo contra o mundo.
Eu precisava disso, precisava me proteger de qualquer indício da noite passada. O dia seguiu com uma aparente normalidade e comecei a sentir minha tensão diminuir, como se finalmente eu estivesse segura de verdade.
Mergulhei em relatórios, revisei documentos, respondi e-mails, participei de duas reuniões curtas. O mundo voltou a girar no eixo conhecido. Aos poucos, meu coração foi desacelerando O corpo lembrou que aquele era o território onde eu mandava, onde era segura, onde tinha controle.
Até que a porta se abriu.
Sem aviso. Sem batida.
Eu ergui os olhos no mesmo segundo em que André entrou e o ar parece ter sido arrancado dos meus pulmões.
Ele fechou a porta atrás de si com calma, atravessou a sala como se estivesse entrando em qualquer outro dia comum e, sem pedir licença, sentou-se na cadeira da frente da minha mesa, apoiando o braço no encosto, pernas abertas, confortável como se a noite anterior fosse um mero detalhe.
Senti o pulso acelerar. Ele estava lindo, ainda mais agora, que parecia que eu conseguia ver todos os seus detalhes.
Ele a observava em silêncio, expressão neutra, quase curiosa. Não havia tensão aparente. Nenhum constrangimento. Nenhum pedido de desculpas silencioso. Nada.
Era isso que me desarmava.
Então resolvi agir no meu modo seguro.
“Eu… esqueci de te entregar algo?"
A frase saiu rápida demais. Uma fuga patética.
André inclinou levemente a cabeça para o lado, um gesto sutil, mas carregado de significado. Um sorriso mínimo curvou o canto da boca.
“Eu achei que você fosse à minha sala assim que chegasse.”
“Por quê?” perguntei, seca demais, cruzando os braços como se isso pudesse me proteger.
Ele deu de ombros, o sorriso crescendo um pouquinho.
“Nada, Laís.” Pausa. “Se vamos agir assim, tudo bem.”
Meu peito latejou com sua resposta, mas não comentei. Eu não podia. Apenas puxei uma pasta da mesa com mais força do que o necessário.
"Mais alguma novidade no caso do Raveli?"
A mudança de assunto era clara. Profissional. Necessária.
André assentiu, acompanhando o movimento dela com os olhos atentos. O André juiz. O André, estrategista. O André que eu conhecia.
“Tenho, mas quero saber as suas informações primeiro.”
Respirei fundo e comecei.
“Os indícios da compra do coração ainda não foram totalmente descartados. Mesmo com as mensagens provando que houve cobrança e com a identificação do intermediário, o Ministério Público ainda trata como suspeita ativa. Principalmente por causa da proximidade entre a Branca e a Aelyn.”
Virei algumas páginas, concentrada. Ou fingindo concentrar.
“O problema é que essa narrativa foi plantada de forma muito eficiente. Mesmo desmontada, ela ainda deixa resquícios. O juiz de primeira instância pediu mais tempo antes de arquivar definitivamente.”
André a observava com atenção total agora.
“E a Clara?” ele perguntou.
Levantei os olhos por um segundo.


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