André
Eu sempre tive domínio sobre as minhas emoções.
Era uma habilidade treinada, afiada ao longo dos anos. No tribunal, em casa, nas decisões difíceis. Nunca levantava a voz. Nunca me deixava levar. Nunca confundia trabalho com desejo.
Nunca.
Eu sabia o que podeia acontecer, sabia que vidas poderiam ser perdidas por aml entendidos, por pequenos gesteos.
Viver com a realidade que minha mãe trouxe com meu padrasto, e com o que le fez com a minha irmã, me deixavam bem atento.
Até agora.
Fechei a porta da minha sala com mais força do que pretendia. O clique ecoou como um tapa. Fiquei parado ali, encarando a mesa organizada, o silêncio confortável demais. Tudo no lugar. Tudo sob controle, como sempre foi. Exceto eu.
A imagem de Laís se impôs em minha mente contra a minha vontade. O jeito como ela desviou o olhar quando nossos dedos se tocaram. O toque rápido, acidental, que durou um segundo a mais do que deveria. A frase curta, firme demais: “Eu não me arrependi. Só foi imprudente.”
Imprudente.
Como se a noite inteira tivesse sido um erro de cálculo. Como se eu fosse só mais uma decisão errada na agenda dela.
"Puta merda. Por que eu to tão puto com isso? Não foi por isso que eu saí mais cedo do apartamento dela? Para ela não entender errado? Então por que eu to puto por ela querer distâncias?"
Bufei baixo, frustrado. Passei a mão pelo cabelo, bagunçando tudo que eu tinha penteado com cuidado naquela manhã. Peguei o celular sem pensar muito. Disquei para a única pessoa que entenderia o que eu estava passando.
Cássio atendeu no primeiro toque.
“Isso é estranho”, a voz dele veio divertida do outro lado. “Você costuma ligar só quando alguém está prestes a ser preso ou processado.”
“Preciso de um conselho”, respondi seco, já andando de um lado para o outro na sala.
Ele não respondeu de imediato O silêncio me incomodou e eu já estava prestes a desligar quando ouvi a risada baixa.
“Conselho? Logo você?” Cássio disse, ainda rindo. “Agora sim fiquei curioso. Fala. Em que merda você se envolveu?"
Apoiei a mão no encosto da cadeira, apertando o couro com mais força do que precisava.
“Como você fez para conquistar a Branca?”
A gargalhada veio imediata, alta o suficiente para me fazer afastar o celular do ouvido.
“Você está falando sério?”
“Estou.”
“Meu Deus”, Cássio disse entre risos. “Essa eu nunca achei que ouviria.”
Fechei os olhos por um instante, impaciente.
“Vocês brigaram muito no começo. Ela te odiava. Você a irritava profundamente. E agora… vocês estão juntos. Firmes. Eu queria entender como você reverteu isso.” Por que era improvável..."
O riso diminuiu.
“Na verdade, não sei como aconteceu”, Cássio respondeu, mais sério agora. “Foi natural. A gente já tinha se conhecido antes. Sempre teve alguma coisa ali. A gente só precisava parar de se sabotar.”
Resmunguei.
“Ótimo. Filosófico. Muito útil.”
Ele riu de novo, mas dessa vez com menos deboche.
“O que foi, juiz? Não está conseguindo conquistar uma garota?”
“Saímos ontem”, respondi, voz baixa. “E hoje ela age como se mal me conhecesse. E o pior que no começo era isso que eu queria, mas depois, sei lá... eu queria repetir....”
“Então você fez alguma merda”, Cássio provocou.
“Não fiz.”
“Ou não foi suficiente.”



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