Branca
A cidade brilhava lá embaixo, milhares de luzes espalhadas como se o mundo inteiro tivesse decidido ignorar o que tinha acontecido naquela manhã. Eu estava de pé diante da janela enorme, braços cruzados com força, tentando organizar pensamentos que se embolavam como arame farpado. Ali dentro era seguro, portões blindados, câmeras, seguranças 24 horas, rotas de fuga planejadas, mas o perigo não tinha ido embora. Ele só tinha trocado de endereço. Estava dentro da minha cabeça, sussurrando que Jonathan ainda sabia onde estávamos, que uma foto, uma mensagem, uma explosão podiam chegar a qualquer momento.
Senti Cássio antes mesmo de ouvir seus passos. O corpo dele era presença constante, silenciosa, protetora. Ele parou atrás de mim, perto o suficiente para que eu sentisse o calor dele nas costas, mas sem tocar ainda. Sabia que eu precisava de espaço.
“Você está longe”, ele disse baixo, voz rouca de quem também não estava tranquilo com a situação.
Não me virei.
“Estou tentando não pensar”, respondi.
Ele soltou um riso curto, sem humor.
“Pensar nunca foi o seu problema.” Aproximou-se mais um passo, até que o peito dele roçou minhas costas. “Sentir é.”
Fechei os olhos quando as mãos dele tocaram minha cintura. Não foi apressado. Não foi exigente. Foi lento, deliberado, como se ele estivesse me ancorando ali, naquele instante, naquele lugar. Os polegares traçaram círculos leves sobre o tecido da minha blusa, evitando qualquer pressão na barriga ainda sensível.
“Aelyn dormiu”, ele murmurou contra meu cabelo. “Ela está tranquila. Fui ver duas vezes.”
Assenti devagar.
“Eu sei. Eu também fui.”
Ele apoiou o queixo no meu ombro, o peso gentil, reconfortante.
“Você não precisa vigiar tudo sozinha.” A voz dele era firme, mas suave. “Hoje… deixa eu cuidar de você.”
Engoli em seco. Meu corpo queria ceder, mas a mente ainda gritava alerta.
“Eu queria conseguir desligar. Nem que fosse por um minuto...”
Ele sorriu contra minha pele, eu senti o movimento.
“Eu tenho um plano.”
Virei o rosto de leve, encarando-o por cima do ombro.
“Devo me preocupar?”
“Talvez”, ele respondeu, os olhos escuros brilhando com algo perigoso e doce ao mesmo tempo. “Mas só um pouco.”
As mãos dele deslizaram com calma, não para provocar de imediato, mas para convencer meu corpo de que não havia perigo ali. O toque era seguro, confiante, como se dissesse sem palavras: ninguém vai te tirar isso agora. Ele me virou devagar de frente para a janela outra vez, me encaixando contra o peito dele, braços ao meu redor como uma gaiola quente e voluntária.
“Olha”, disse, a boca perto do meu ouvido. “Está vendo?”
“Estou.”
“A cidade não parou.” Ele apertou de leve minha cintura, o polegar roçando a pele exposta onde a blusa subiu um pouco. “E nós também não vamos parar.”
Meu coração disparou. O vidro frio contra minha testa contrastava com o calor do corpo dele atrás de mim.
“Você lembra do que eu te disse mais cedo?”, perguntou, a voz descendo um tom rouco, quase um ronronar.
Lembrei. E corei só de pensar. O fetiche dele. A cidade inteira assistindo enquanto ele me possuía contra aquela janela.
“Você não tem vergonha nenhuma”, murmurei, mas minha voz saiu fraca, traída pelo desejo que já subia quente pela barriga.
Ele riu baixo, o som vibrando contra minhas costas.
“Tenho. Só escolho ignorar quando é com você.”
Senti o sorriso dele antes de sentir o beijo no meu pescoço. Não foi urgente. Foi paciente. Lento. A boca dele traçou um caminho molhado e quente da nuca até a orelha, mordiscando de leve o lóbulo. Uma das mãos subiu devagar pela minha costela, roçando a lateral do seio por cima da blusa, o polegar circulando o mamilo que já endurecia sob o tecido fino.
“Eu passei tempo demais sobrevivendo”, sussurrei, a voz tremendo.
Ele apertou de leve meu seio, o toque firme mas cuidadoso, nunca cruzando a linha da dor.
“Então deixa eu te lembrar como é viver.”
Não foi pressa. Não foi desespero.


VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz