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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 109

Cássio

O vento batia leve na varanda, quente e preguiçoso, mas por dentro eu sentia um frio que não explicava. A cobertura era alta o bastante para transformar o barulho da cidade num murmúrio distante, quase inofensivo. Lá embaixo tudo seguia normal: carros serpenteando, gente andando apressada, vida pulsando como se nada tivesse acontecido. Como se uma explosão não tivesse estilhaçado nossas janelas horas antes.

Aelyn correu até a grade de vidro e encostou o rosto, os olhos arregalados de encanto.

“Olha, tia Branca! Parece que a gente mora no céu!”

Branca riu, mas foi um riso curto, contido, daqueles que não chegam aos olhos. Ela caminhou devagar até a menina, como se o corpo ainda doesse em cada movimento. O cabelo solto balançava com o vento, e a pele pálida demais contrastava com o sol forte. Ela limpou a marca de boca que Aelyn deixou no vidro com o polegar.

“Não coloca a boca no vidro, princesa. Você transforma tudo em arte moderna.”

Aelyn gargalhou alto, o som puro cortando o ar pesado.

Eu fiquei dois passos atrás, observando as duas. Ainda era estranho tê-las ali, no meu espaço, na minha rotina. Como se a vida tivesse dado uma versão alternativa que eu nunca teria coragem de pedir. E ainda assim, a cada minuto, a sombra tentava entrar.

Meu celular vibrou no bolso.

Puxei o aparelho com gesto automático, já esperando atualização de perímetro, câmera, qualquer coisa técnica. Mas não era.

Era uma foto.

Nós saindo da casa antiga: Branca segurando a mão de Aelyn, eu carregando as malas. Ângulo alto, distante. Longe o suficiente para parecer casual… perto o bastante para mostrar que quem tirou estava vigiando de verdade.

Logo abaixo, uma única mensagem:

“Não tem onde se esconder, juiz. Eu tenho olhos em todo lugar.”

Minha mandíbula travou. O sangue subiu quente, rápido, como se o corpo quisesse reagir antes da mente.

Bufei baixo. Não de medo. De raiva pura.

Encaminhei a imagem e a mensagem para Marcos imediatamente, junto com o número de origem.

Dois segundos depois, veio a confirmação:

“Recebido. Rastreamento em andamento. Mantemos protocolo, senhor.”

Guardei o celular como se nada tivesse acontecido.

Branca me olhou de canto. Ela tinha aquele radar emocional que me irritava e me encantava na mesma medida.

“Tá tudo bem?”, perguntou, voz baixa para Aelyn não ouvir.

Sorri. Um sorriso treinado, o mesmo que eu usava para convencer uma sala inteira de algo que eu não sentia.

“Tudo ótimo.” Olhei para Aelyn. “Filha, vem cá, não fica grudando no vidro. Vamos ver o que tem pra almoçar.”

Aelyn virou correndo.

“Eu quero macarrão!”

“Você quer macarrão todo dia”, Branca provocou, sorrindo de leve.

“Porque macarrão é uma delicia e comida de unicórnio”, Aelyn decretou, como se fosse lei universal.

Branca ficou parada por um segundo, meio deslocada no espaço novo. Os olhos percorriam a varanda, a vista, o céu, como se tudo fosse bonito demais para confiar.

Eu me aproximei e a abracei por trás, braços firmes ao redor da cintura dela.

“Ei”, murmurei contra o cabelo. “Não fica pensando que a culpa é sua.”

Ela soltou um ar preso há horas.

“Eu não estou…”

“Está”, cortei, suave. “Eu vejo. Você acha que trouxe isso pra cima da gente. Mas não trouxe.”

Branca mordeu o lábio, olhando para Aelyn que agora girava no meio da varanda imitando uma bailarina.

“Se não fosse o Jonathan…”

“Seria outra coisa”, terminei. “Nossos inimigos só se juntaram pra nos atazanar.” Inclinei o rosto e beijei a testa dela, demorando o suficiente para sentir o calor da pele. “Eu não vou deixar isso vencer.”

Ela soltou um riso sem humor.

“Você fala como se fosse simples.”

“Não é simples.” Encostei a testa na dela por um instante. “E eu não vou fingir que não tenho medo. Eu tenho. Muito. Mas eu te prometo que vai melhorar. Vai ficar tudo bem.”

Ela assentiu devagar.

Eu sabia que não estava convencendo só ela. Estava tentando convencer a mim mesmo.

Na cozinha, silêncio, bancada impecável, geladeira abastecida como se alguém tivesse previsto nossa chegada com precisão militar. Pratos prontos para aquecer. Frutas cortadas. Jarra de suco. Conforto em forma de logística.

109. Foto 1

109. Foto 2

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