Branca
Eu estava tensa pra caralho.
Por dentro, cada músculo parecia esticado como arame farpado, pronto pra romper. Por fora, eu sorria. Um sorriso automático, daqueles que a gente aprende quando precisa proteger alguém pequeno demais pra entender o tamanho da merda que está acontecendo.
Aelyn estava no banco de trás, abraçada ao unicórnio novo, cantarolando baixinho uma musiquinha sem começo nem fim. Cássio dirigia em silêncio absoluto, os olhos grudados no retrovisor, nas laterais da estrada, em cada carro que se aproximava um pouco mais do que o normal. Ele escondia melhor do que eu, o maxilar travado, as mãos firmes no volante, mas eu via as veias saltadas nos antebraços.
O sol do meio-dia batia forte no para-brisa, quente demais pra uma manhã que tinha começado com sirenes, explosão e cheiro de queimado. Eu nunca imaginei que aquele dia fosse terminar assim. Ou começar assim. Ou existir assim.
A viagem seguiu quase muda.
Quando o carro reduziu a velocidade, olhei pela janela e senti o impacto de uma vez só.
O prédio era imponente. Todo espelhado, alto, frio por fora, mas prometendo segurança por dentro. Refletia o céu azul como se quisesse se esconder dele. Entramos pela garagem subterrânea. Portões pesados se fecharam atrás de nós com um baque surdo. Códigos foram digitados. Carros da segurança vieram logo atrás, bloqueando a saída. Só depois de autorizados é que descemos.
Ali, pela primeira vez desde a explosão, senti o ar entrar nos pulmões com um pouco menos de peso.
No elevador, Aelyn quebrou o silêncio.
“Papai… aqui é novo? Eu nunca vim nessa casa.”
Cássio riu, aquele riso curto que ele soltava quando tentava parecer normal.
“Na verdade, faz um tempo que eu comprei”, explicou. “Mas como você estava doente, não tinha como te trazer.”
Ela franziu a testa, curiosa.
“Então por que você comprou?”
“Porque eu sou ansioso”, ele respondeu, bagunçando de leve o cabelo dela. “Eu comprei esse apartamento pensando em quando você for pra faculdade. Assim você já tem um lugar pra morar, pertinho de mim.”
Olhei para ele, incrédula.
“Homem do céu”, murmurei. “Ela nem vai pra escola ainda.”
Os dois riram, Aelyn de verdade, eu de nervoso.
“Não me culpe por me preocupar com o futuro dela”, ele disse, olhando pra mim pelo canto do olho. “Um corretor me apresentou o lugar, eu gostei… e logo depois veio o diagnóstico da Aelyn. Aí você já sabe tudo o que aconteceu.”
As portas do elevador se abriram.
E eu fiquei sem ar.
Não era apenas um apartamento.
Era uma cobertura. Paredes de vidro do chão ao teto, tons neutros quentes, madeira clara, móveis confortáveis sem ostentação. A luz natural entrava de todos os lados, fazendo o espaço parecer… menos cruel. Menos ameaçador.
Olhei em volta, devagar.
“Agora eu entendi por que você se apaixonou”, falei, sincera.
Ele sorriu de lado.
“Eu sabia que você ia gostar.”
Aelyn já corria pelo espaço, explorando como se tivesse nascido ali.
“Vem”, Cássio disse. “Vou mostrar os quartos.”
O quarto dela era perfeito. Claro, acolhedor, janelas grandes com vista aberta. Ela rodou no meio do quarto, avaliando.
“É lindo”, decretou. “Mas falta estrelas… e unicórnios.”
Cássio riu.
“Isso é fácil de resolver. Amanhã mesmo a gente coloca tudo.”
Sorri, sentindo algo se acalmar dentro de mim.
Então me virei para ele.
“E eu fico em qual quarto?”



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