Cássio
Branca me olhou com aquela expressão que eu já conhecia de cor: não era pânico escancarado, mas também não era calma. Era o olhar de quem calcula o próximo segundo antes de decidir se corre ou luta. A pergunta veio silenciosa, nos olhos dela: “E agora?”
“Onde a gente vai?”, perguntou baixo, para que Aelyn não ouvisse o tremor na voz.
Aproximei-me, falando perto do ouvido dela, tentando trazer para ela uma paz que nem eu sentia.
“Tenho um apartamento na cidade vizinha. Maior, mais afastado, janelas blindadas, entrada subterrânea. Meus seguranças já foram para lá verificar se está tudo em ordem. Está tudo preparado. Ninguém entra sem passar por três camadas de verificação.”
Ela assentiu devagar, mas os olhos ainda procuravam os meus, como se quisesse ler se eu estava mentindo para protegê-la.
“A delegada vai dar apoio direto”, acrescentei. “Contato 24 horas. Eles vão monitorar a rota. Ninguém vai nos seguir sem que a gente saiba. Foi bom ela estar aqui. Ela entendeu a gravidade da situação.”
Aelyn apertava a mão dela com força, os olhinhos atentos demais para uma criança que tinha sonhos com unicórnios e planos para paredes rosas. Eu me abaixei na altura dela, forcei um sorriso tranquilo, daqueles que eu usava no tribunal quando o júri estava prestes a decidir contra mim.
“Vamos fazer uma pequena viagem, tá? Tipo uma aventura secreta.”
“Com mala?”, ela perguntou, voz fininha.
“Com mala”, confirmei, bagunçando de leve o cabelo dela. “E você pode levar todos os unicórnios que quiser.”
Ela pareceu considerar a ideia. Um sorrisinho tímido surgiu.
Beijei a testa dela primeiro, demorando o suficiente para sentir o cheiro de xampu infantil que ainda estava lá, apesar do cheiro de fumaça que impregnava tudo. Depois me levantei e inclinei para Branca. Beijei a testa dela também, mas demorei mais um segundo, deixando os lábios encostarem na pele quente.
“Vai arrumar as coisas de vocês”, pedi, voz baixa. “Eu cuido do resto. Prometo que nada vai acontecer com vocês duas. Nem hoje. Nem nunca.”
Ela confirmou com um aceno curto e saiu com Aelyn pela mão, subindo as escadas devagar, como se cada degrau doesse.
Esperei até perdê-las de vista. Só então respirei fundo, o ar entrando pesado, como se tivesse um peso no meu peito.
Desci para a sala de reuniões improvisada. André e Laís estavam lá, planilhas abertas no tablet, celulares piscando, anotações rabiscadas em papéis amassados. Caos controlado.
“Está tudo pronto”, informei. “Saímos em uma hora. Escolta completa, rota alternativa, dois carros de apoio. Ninguém entra nem sai sem minha ordem.”
André assentiu.
“Não se preocupe Cássio,k estmaos com tudo em ordem. Marcos já me passou tudo. Não conseguiram pegar o homem, mas está claro que foi ele que implantou a bomba caseira. Já estão puxando nas câmeras o rosto dele. A delegada quer isso para ontem.”
Laís se aproximou, o olhar sério demais.
“Cuida dela, Cássio.”
Olhei direto nos olhos dela.
“Não se preocupe com isso.”
“Eu me preocupo”, ela corrigiu, voz baixa e cortante. “Cuida dela de verdade. Eu sei que você domina segurança, ameaça, estratégia. Mas ela… ela já perdeu um filho. Já enterrou o futuro que sonhou. Se algo acontecer com a Aelyn, ou com você… ela não aguenta mais uma perda.” Eu conheço a minha amiga, ela vai preferir se entregar a deixar algo acontecer com vocês,
O peito apertou. Não respondi de imediato. Só assenti uma vez, seco.
“Não vou deixar nada acontecer com elas. Nem com uma delas. Vou deixar claro para a Branca que está tudo bem e que dou conta disso.”
Laís pareceu relaxar um milímetro, mas logo o rosto mudou.
“Chegou mais uma informação.”
Bufei baixo.
“Espero que seja boa.”
Ela negou com a cabeça.
“O túmulo do Pedro foi violado.”
O chão pareceu sumir por um segundo. Meu estômago revirou.
“O corpo está lá”, ela continuou rápido, antes que eu pudesse reagir. “Mas tudo foi revirado. Alguém cavou, procurou algo. Confirmação, talvez. Ou só pra machucar ainda mais a Branca.”


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