Branca
O barulho ainda zunia nos meus ouvidos como um alarme quebrado quando comecei a correr. Não pensei. Não medi a dor que subia pelo abdômen como fogo. Não calculei risco. Só uma coisa existia na minha cabeça, batendo como um martelo: Aelyn.
Meu corpo protestou a cada passo. Os pontos na barriga repuxaram, uma pontada aguda que me fez prender a respiração, mas eu ignorei. O corpo podia sangrar depois. Agora, não. Agora eu precisava encontrá-la antes que o mundo desabasse de vez.
"Aelyn!", chamei, a voz saindo mais alta do que eu queria, ecoando pelo corredor vazio. "Meu amor!"
O ar já cheirava a queimado. Fumaça grossa, acre, começando a invadir a casa pelas janelas estilhaçadas. Vidros quebrados rangiam sob meus pés. Vozes gritavam lá fora, ordens secas, rádio chiando, passos pesados correndo. Alguém berrava "Perímetro! Perímetro!" como se fosse guerra.
"Aelyn!", chamei de novo, o coração na garganta, quase sufocando.
Foi quando vi.
Cássio vinha pelo corredor oposto, ela no colo, os braços dele travados em torno do corpinho pequeno como grades de ferro. Aelyn chorava baixo, o rosto enterrado no pescoço dele, os dedinhos agarrados na camisa como se ele fosse a única coisa sólida no mundo. O rosto dele estava branco, os olhos arregalados, mas controlados. Alerta máximo.
"Branca", ele disse rápido, voz baixa e cortante. "Vem comigo. Agora."
Corri até eles. Envolvi Aelyn com os braços, puxando-a contra mim sem nem perceber que minhas mãos tremiam tanto que pareciam não me pertencer. Senti o calor do corpinho dela, o cheiro de xampu infantil misturado com suor de medo.
"Tá tudo bem, meu amor. A tia tá aqui. Estou aqui com você."
Cássio não perdeu tempo. Pegou meu braço com firmeza, mas sem machucar, e nos guiou pelo corredor lateral.
"Fiquem no closet do quarto-hospital." Ele abriu a porta com o ombro, apontando o espaço escuro. "Entrem. Tranque a porta. Não saiam por nada. Só abra quando eu voltar."
"Mas o que foi isso?", perguntei, já entrando com Aelyn nos braços.
"Depois eu explico." Ele me olhou nos olhos por um segundo. "Confia em mim."
Confiei.
Entrei. Fechei a porta. A luz automática acendeu, fria e branca, revelando as roupas penduradas em fileiras, caixas empilhadas, o cheiro limpo de tecido guardado. Girei a tranca. O clique soou alto demais no silêncio repentino.
Aelyn soluçava baixinho contra meu ombro.
"Tia Branca… o que aconteceu? Foi um barulho muito alto… eu achei que a casa ia cair…"
Ajoelhei no chão com ela, ignorando a dor que subia pela barriga. Puxei-a para o colo, apertando-a contra o peito.
"Eu não sei direito, meu amor", menti, odiando cada palavra. "Deve ter sido algum acidente lá fora. Um carro que pegou fogo. Às vezes acontece."
Ela ergueu o rosto, olhos vermelhos, marejados, cheios de terror infantil.
"Mas eu fiquei com medo. Muito medo."
"Eu sei." Beijei a testa dela, sentindo o gosto salgado das minhas próprias lágrimas que eu nem tinha percebido. "Eu também fiquei. Mas olha pra mim."
Esperei até ela me encarar, aqueles olhos enormes que pareciam engolir o mundo.
"Você tá segura agora. Eu prometo. Eu não vou deixar nada acontecer com você."
Aquele momento me atravessou como um raio antigo. Eu ali, escondida num espaço pequeno. Silêncio forçado. Uma criança nos braços. Era exatamente assim que eu protegia o Pedro quando Jonathan perdia o controle. Quando a casa tremia com os gritos dele. Quando eu o escondia no armário, tapava a boca dele com a mão para abafar o choro, sussurrava "shhh, meu amor, fica quietinho, a mamãe cuida de tudo".
Engoli a lembrança antes que ela me engolisse viva.
"Vamos fazer uma coisa?", sugeri, forçando um sorriso que doía nos cantos da boca. "Vamos brincar de contar uma história? Uma só nossa."
Ela fungou, limpando o nariz na manga.
"Que história?"
"Uma história inventada. Eu começo, você continua. Depois eu continuo de novo."
Os olhos dela brilharam um pouquinho, apesar do medo.
"Pode ter unicórnio?"
"Tem que ter."
Ela assentiu devagar.
"Então começa."



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