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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 105

Branca

A sala estava silenciosa demais, um silêncio sufocante que se infiltrava pelos cantos. A delegada sentou-se à minha frente, pasta grossa nas mãos, organizada como uma arma carregada. Sua expressão era neutra, mas os olhos... aqueles olhos eram lâminas afiadas, cortando o ar entre nós. Nenhum julgamento aparente, só escuta voraz. Ainda assim, minhas mãos tremiam no colo, frias como se o sangue tivesse fugido delas.

"Pode começar do início", ela disse, voz baixa, quase um sussurro conspiratório. "Sem pressa. Não estou aqui para te pressionar, apenas para saber o seu lado da história e se o que seu marido falou é verdade."

Respirei fundo, mas o ar entrou rasgando, como se meus pulmões fossem feitos de papel. O passado veio como uma avalanche escura.

"O Jonathan sempre foi violento", comecei, a voz saindo rouca, carregada de veneno antigo. "Não só com os punhos. Ele devorava o controle. Decidia o que eu vestia, comia, pensava. Quando engravidei do Pedro, isso virou um inferno. Ele me isolava, me vigiava como se eu fosse propriedade. Uma incubadora para o herdeiro dele."

Ela anotou algo, o som da caneta arranhando o papel ecoando como unhas em uma lousa.

"Quando foi que a senhora decidiu fugir?"

"Quando descobri o abismo em que ele nadava. Tráfico de drogas. Não era bagunça de rua, era império. Transporte de cargas pesadas cruzando fronteiras como fantasmas, lavagem de dinheiro sujo em empresas fantasmas que apareciam e sumiam nos registros como fumaça. Eu ouvi conversas escondida atrás de portas trancadas, o sussurro rouco dele misturado com risadas frias de homens que cheiravam a pólvora e notas velhas. Vi documentos, planilhas com números que sangravam, nomes que eu sabia que nunca mais veria vivos. E quando confrontei..."

Minha voz quebrou, um nó se formando na garganta como uma corda de náilon apertando devagar, cortando o ar. Engoli em seco, mas o gosto era de ferro e lágrimas antigas.

"Ele me olhou como se eu já fosse um corpo em decomposição. Percebeu na hora que eu sabia demais. Que eu era uma ameaça viva, respirando, capaz de derrubar tudo que ele construiu com sangue e mentiras. Eu o acusei, gritei que não queria aquilo para o Pedro, que meu filho não ia crescer respirando esse veneno. E ele... para me calar, para me lembrar quem mandava... surrou o Pedro. Meu bebê tinha só um ano."

As palavras saíram como lâminas, rasgando a garganta no caminho. Senti o estômago revirar, a bile subindo quente, ácida. A imagem voltou nítida, cruel: o corpinho pequeno no chão, o choro abafado que durou horas, as marcas roxas que eu cobria com mangas compridas e mentiras para mim mesma. Jonathan não precisava bater em mim para me destruir, ele batia no que eu mais amava, e aquilo era pior que qualquer soco.

"Ele me disse, com a voz calma como se estivesse comentando o tempo: 'Se você abrir a boca, da próxima vez não vai ser só um tapa. Vai ser o fim dele.' Eu fiquei calada. Até que não aguentei mais e entreguei tudo. Denunciei em silêncio, aceitei o programa de proteção, fugi com o Pedro nos braços... mas o medo nunca foi embora. Ele só aprendeu a esperar na escuridão."

A delegada não interrompeu. Só anotou, o som da caneta arranhando o papel. Eu continuei olhando para o vazio à frente, vendo o passado se repetir em flashes vermelhos e pretos.

"Ele não perdoa quem o ameaça. E eu o ameacei com a verdade. Agora ele quer me destruir de volta... e usar o Pedro como arma, mesmo depois de morto."

"Jonathan ficou preso?", ela perguntou, inclinando-se para frente, como se farejasse o sangue.

"Não chegou a um ano." Um riso sem humor escapou, cortante como vidro quebrado. "Ele tinha os melhores advogados que o dinheiro sujo compra. Saiu rindo, enquanto eu me escondia em buracos escuros."

"E durante esse tempo?"

"Vivi sempre procurando o próximo esconderijo." A resposta veio rápida, afiada. "Cada sombra na rua era ele. Cada batida na porta era o fim. Mas consegui ficar fora do radar por cinco anos. Até... até o acidente que levou meu filho de mim, e eu me esqueci de me esconder."

A delegada fechou a caneta por um segundo, o clique ecoando como um gatilho.

"Jonathan menciona o filho no requerimento", ela disse, voz baixa como um sussurro de fantasma. "Alega que foi impedido de conviver com ele."

"Ele nunca procurou o Pedro." Minha voz endureceu, aço frio. "Nunca. Só apareceu agora, como um abutre farejando carniça, para usar isso contra mim. Para me arrastar de volta ao abismo. Ele não se interessa no filho, deve haver algo mais."

Ela assentiu, sombras dançando no rosto sob a luz fraca.

"E hoje, a senhora vive com o senhor Cássio Ravelli."

"Sim." A palavra saiu firme, mas o coração martelava como um prisioneiro nas grades.

"Ele a mantém sob algum tipo de restrição?"

"Não." Neguei de imediato, fogo nos olhos. "Ele está me salvando. Se não fosse ele e a sua filha, acho que já teria cometido uma loucura. Estamos reconstruindo algo no meio das ruínas."

A delegada virou páginas, o farfalhar soando como folhas mortas ao vento.

"Vejo aqui que existe também um processo envolvendo a doação do coração do seu filho."

Meu estômago revirou, uma náusea sombria subindo como bile negra.

105. Depoimento 1

105. Depoimento 2

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