Cássio
O papel caiu sobre a mesa como se fosse chumbo disfarçado de papel sulfite. Intimação. A palavra já estava impressa em letras pretas frias, mas quando li, senti cada sílaba se cravar no peito.
“Cárcere privado…”
A frase saiu baixa, quase um rosnado. Soltei um riso seco, sem humor, curto como um tapa na própria cara. Li de novo. E de novo. Na terceira vez, meu maxilar travou tão forte que ouvi os dentes rangerem.
André estava de pé à minha frente, braços cruzados, rosto de pedra. Laís encostada na lateral da mesa, celular ainda na mão, como se tivesse acabado de desligar uma bomba-relógio.
“Jonathan entrou com ação contra você”, André disse, voz baixa e controlada. “Alegação de cárcere privado, abuso de poder e obstrução de convívio familiar.”
Bufei, passando a mão pelo rosto com força, como se pudesse apagar a raiva.
“Ele é um filho da puta criativo.”
“Ele é perigoso”, Laís corrigiu, olhos afiados. “E sabe exatamente onde enfiar a faca pra doer mais. Ele não está brincando, Ravelli.”
Olhei para ela. Meu peito subia e descia rápido demais.
“O que a gente faz agora?”
“A gente j**a o jogo”, ela respondeu, firme como sempre. “Já chamei a delegada da Delegacia da Mulher. Branca vai prestar depoimento ainda hoje. Vai contar tudo. Do começo. Eles vão querer te ouvir também.”
Assenti devagar, mas por dentro eu já estava fervendo.
“Vamos administrar isso. Eu não vou deixá-la voltar para aquele maníaco.”
Laís respirou fundo antes de continuar:
“Para nossa sorte, o processo de separação litigiosa já está correndo há semanas. Isso prova que ela tenta se livrar dele faz tempo. Não é fuga. É sobrevivência. Não existe casamento a muito tempo.”
Aquilo me deu um fiapo de ar. Só um fiapo.
“Chama a Branca”, pedi, voz rouca. “Por favor. Ela precisa saber disso.”
Laís saiu sem dizer mais nada.
Fiquei andando de um lado para o outro como animal enjaulado, o papel ainda amassado na mão. Cárcere. A palavra martelava na cabeça como um martelo. Se ele conseguisse virar a narrativa… se pintasse Branca como vítima minha… se transformasse o abrigo que eu ofereci em prisão… ele ia destruí-la. E me destruir junto.
A porta se abriu.
Branca entrou devagar, o olhar atento, já sentindo o ar pesado antes mesmo de ver o papel. Estava tensa, ombros retos, mas os olhos carregavam aquela força quieta de quem já caiu mil vezes e se levantou mil e uma.
“Vem”, falei, puxando a cadeira atrás da minha mesa. “Senta aqui.”
Ela franziu a testa, confusa, mas obedeceu. Sentou-se na minha cadeira, enquanto eu fiquei em pé à frente dela, as mãos apoiadas na mesa como se precisasse me segurar.
“Eu preciso que você seja forte agora”, disse baixo, olhando direto nos olhos dela.
Ela olhou ao redor, para André, para Laís, para mim, tentando montar o quebra-cabeça.
“O que está acontecendo?”
Respirei fundo, o ar entrando cortante.
“O Jonathan entrou na justiça contra mim.”
Os olhos dela se arregalaram. O rosto perdeu cor por um segundo.
“O quê?”
“Ele me acusa de estar te mantendo em cárcere privado.”
Por um instante, achei que ela fosse desabar. Que o peso fosse grande demais. Mas Branca fechou os olhos, respirou fundo uma vez, duas… e quando abriu os olhos de novo, havia fogo ali.
“Eu tenho um documento de proteção a testemunhas.”
Levantei o olhar imediatamente, o coração disparando.
“Como é?”
“Foi por isso que eu e o Pedro mudamos de sobrenome”, ela disse, voz firme, sem tremor. “Eu posso provar que estou fugindo dele. Que sempre estive fugindo. Tenho registros, protocolos, relatórios médicos, boletins de ocorrência antigos. Ele é uma ameaça real. Eu tenho tudo arquivado.”
Senti algo se soltar no peito, não alívio completo, mas uma faísca de esperança feroz.
Aproximei-me, segurei o rosto dela com as duas mãos, polegares nas bochechas, sentindo a pele quente sob os dedos.
“Isso muda tudo”, murmurei, voz rouca. “Então separa tudo. Organiza. Entrega pra delegada. Ela está vindo para tomar seu depoimento sobre o caso de cárcere privado.”

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