Jonathan
A ligação chegou no meio da tarde, quando o sol já começava a baixar e o escritório parecia menor do que nunca. Eu assinava papéis sem ler, só para manter as mãos ocupadas, quando o celular vibrou sobre a mesa de mogno. Número conhecido. Um dos meus homens, daqueles que eu pagava caro para ver o que eu não podia ver pessoalmente.
"Chefe tenho uma nova informação sobre sua esposa."
“E qual é?”, perguntei.
Uma pausa curta do outro lado.
“Ela está no cemitério.”
Meu corpo reagiu antes da mente. Um frio seco subiu pela coluna, como se alguém tivesse aberto uma janela no inverno.
“O quê?”
“Branca. Cássio. A criança também. Estão lá agora. Ficaram um tempo considerável. Não foi visita rápida. Pareciam… emocionados. Acho que é mesmo o seu filho enterrado ali.”
Desliguei sem responder. Sem despedida. Sem mais uma palavra.
Cemitério.
A palavra ecoou na cabeça como um erro de digitação em um documento importante. Não fazia sentido. Nada fazia sentido.
Pedro não podia estar morto. Não daquele jeito. Não sem que eu tivesse decidido o momento, o lugar, o porquê. Não sem que aquilo me servisse de alguma forma. Ele era a chave. A herança do velho, o dinheiro que ainda estava preso em cláusulas idiotas, o poder que eu precisava para recuperar tudo que perdi. Se o garoto estivesse morto de verdade…
Levantei da cadeira devagar, mas os passos vieram rápidos, irritados, curtos. Andei em círculos pelo escritório, a caneta ainda na mão, apertada até os nós dos dedos ficarem brancos.
Se o corpo tivesse sido enterrado sem eu saber…
Se ela tivesse feito isso sozinha…
Meu estômago revirou. Peguei o telefone de novo.
“Quero a exumação.”
Do outro lado, um silêncio cauteloso.
“Jonathan, isso pode chamar atenção. Pode complicar…”
“Eu pago o dobro”, rosnei. “Quero um teste de DNA. Agora. Confirmação absoluta. Quero saber se é mesmo o meu filho que está enterrado ali.”
Desliguei antes que viessem mais objeções.
Dois dias.
Dois dias inteiros andando em círculos pela casa, bebendo uísque demais, dormindo pouco, xingando paredes, xingando o reflexo no espelho. A imagem não saía da cabeça: Branca ajoelhada diante de uma lápide, chorando, com aquela criança no colo, Cássio ao lado como se fosse o dono do luto dela. Ela não podia ter feito isso. Não podia ter enterrado meu filho sem me avisar. Sem me dar a chance de usar aquilo a meu favor.
Quando o telefone tocou de novo, atendi no primeiro toque.
“E então?”
A voz veio fria, profissional, sem rodeios.
“O exame confirmou. O corpo é do Pedro. Filho biológico de Branca e Jonathan. Sinto muito, senhor.”
O silêncio que veio depois não era de luto. Era oco. Vazio. Irritante como um zumbido constante no ouvido.
Meu maxilar travou.
“Você tem certeza absoluta?”
“Certeza absoluta. DNA não mente.”
Desliguei.
O copo que eu segurava voou contra a parede. O vidro explodiu em cacos, uísque escorrendo pela pintura cara. O som ecoou como um ponto final.
“Filha da puta!”, gritei para o vazio. “Desgraçada!”
Ela tinha feito isso.
Ela tinha deixado meu filho morrer.
E, pior: tinha tirado de mim a única coisa que ainda importava de verdade.
A herança. O dinheiro do velho. O controle.
“Eu vou matar aquela vadia”, murmurei, andando de um lado para o outro, os cacos de vidro rangendo sob os sapatos. “Eu juro por Deus que vou.”
Mas não agora.
Não ainda.
Antes de qualquer coisa, eu precisava entender o que estava acontecendo dentro daquela casa. Como ela tinha conseguido virar o jogo. Como tinha convencido Cássio Ravelli de que merecia ficar ali, no meio daquela família de mentira.
Foi aí que lembrei dela.
Julia Newton. A arquiteta dispensada.


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