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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 102

Branca

Depois que Aelyn finalmente pegou no sono, a casa mergulhou num silêncio que parecia vivo. Não era o silêncio tranquilo da madrugada comum; era daqueles que se sentam ao seu lado, pesam no peito e observam cada respiração sua como se esperassem um erro.

Fechei a porta do quarto dela com o maior cuidado do mundo, parando ali por alguns segundos só para ver o peito pequeno subir e descer, o ursinho apertado contra o rosto. Ela dormia de boca entreaberta, um fio de baba escorrendo no travesseiro. Estava em paz. Segura. Feliz de um jeito que eu nem lembrava mais como era possível.

E foi exatamente isso que me quebrou.

Voltei para o quarto na ponta dos pés. Cássio já estava deitado, luz apagada, só o brilho fraco do abajur do lado dele. Deitei ao lado, e ele me envolveu automaticamente com o braço, como se meu corpo já fosse uma extensão do dele. Fechei os olhos, tentando me ancorar no calor, no cheiro dele, na respiração ritmada que subia e descia contra minhas costas.

Mas o silêncio era insistente demais. E as lágrimas vieram sem pedir licença.

Não foi um choro dramático. Foi quieto, contido, quase culpado. Apertei o rosto contra o travesseiro para abafar qualquer som, para não acordá-lo, para não ter que explicar. O peito ardia, uma dor velha, conhecida, misturada com algo novo e ainda mais afiado: culpa por estar feliz.

O berço branco da loja voltou à mente como um flash. A voz da Aelyn, tão simples e direta: “Eu quero um irmãozinho”. O sorriso do Cássio, calmo, dizendo “um dia”. Eu ri hoje. Planejei paredes de unicórnio. Senti que pertencia a algum lugar de novo. E isso me aterrorizava.

Será que eu estava traindo o Pedro?

Será que rir, amar, sonhar com mais filhos significava que eu o estava deixando para trás? Que o amor que eu jurei que nunca diminuiria estava encolhendo para dar espaço a outro?

Senti o colchão se mexer.

O braço de Cássio apertou minha cintura de leve.

“Branca…”, murmurou, voz rouca de sono. “Você tá com dor?”

Balancei a cabeça, mesmo sabendo que ele não via.

“Não.”

Ele se mexeu, apoiando o cotovelo, agora acordado de verdade. A mão subiu para meu rosto, afastando o cabelo com uma delicadeza que sempre me desarmava.

“Tem certeza?”

“Tenho.”

Mas ele não comprou minha fala. Nunca comprava quando eu tentava esconder.

O polegar dele encontrou a umidade na minha bochecha.

“Então por que você tá chorando?”

Respirei fundo. O ar entrou pesado, como se os pulmões tivessem encolhido.

“Porque… eu tô feliz demais.”

Ele ficou quieto. Não interrompeu. Só esperou.

“Hoje foi um dia bom”, continuei, a voz tremendo. “Eu ri de verdade. Planejei coisas bobas com a Aelyn. Me senti… parte de algo. E isso me assusta. Parece que eu tô esquecendo o Pedro. Que tô traindo ele por querer viver de novo.”

Cássio não respondeu logo. Me puxou para mais perto, até minha testa encostar no peito dele. O coração dele batia firme contra meu ouvido.

“Você não tá esquecendo seu filho”, disse enfim, voz baixa e sólida. “Você tá sobrevivendo. E sobrevivência não é traição. É continuação.”

As lágrimas escorreram livres agora, quentes, sem controle.

“Dói”, sussurrei. “Dói sentir que a vida continua sem ele.”

“Vai doer sempre um pouco”, ele respondeu, sem tentar consertar o que não tinha conserto. “Mas você tem direito de sentir o resto também. Alegria. Amor. Futuro. O Pedro não ia querer que você parasse de viver por causa dele.”

Ficamos em silêncio, só respirando juntos. O peito dele subia e descia devagar, me acalmando sem esforço.

“Amanhã”, ele disse, quebrando o silêncio com suavidade. “A gente vai lá.”

Levantei o rosto para encará-lo.

“Lá?”

“No cemitério.” Ele me olhou com cuidado, sem pressão. “Se isso te ajudar a acalmar o coração. Se te ajudar a sentir que pode carregar os dois amores ao mesmo tempo.”

Assenti devagar, sentindo algo se soltar dentro de mim.

“Obrigada.”

Ele beijou minha testa, demorado.

“Você não carrega isso sozinha mais. Eu to aqui com você e a Aelyn também.”

102. Irmã de coração 1

102. Irmã de coração 2

102. Irmã de coração 3

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