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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 101

Cássio

Saí do quarto da Aelyn ainda sentindo o eco daquela voz arrogante na cabeça. “Não se intrometa, babá”. A palavra em si não era o problema. Branca tinha sido a babá da Aelyn por um tempo, e ela nunca se incomodou com o título. Aceitava com naturalidade, até com carinho, porque era verdade: ela cuidava da minha filha como ninguém. O que queimava era o tom. A forma autoritária como a arquiteta cuspiu aquilo, como se Branca fosse uma empregada qualquer que não tinha direito de opinar, de proteger, de estar ali no meio de nós. E pior: a maneira como ignorou completamente a opinião da Aelyn, tratando minha filha de seis anos como se fosse uma boneca decorativa que precisava ser “educada” para gostos mais sofisticados.

Não. Eu não ia deixar aquilo passar.

Desci as escadas rápido, passos firmes, o mesmo ritmo que usava quando entrava na sala de audiência sabendo que a outra parte já tinha perdido antes de abrir a boca. A senhorita Newton ou Júlia, como ela insistia em ser chamada, já estava na porta de saída, mão na maçaneta, pronta para sair com o ego machucado, mas ainda tentando manter a pose.

“Senhorita Newton, espere um segundo.”

Ela parou. Virou devagar, e o sorriso charmoso que surgiu no rosto dela foi quase automático. Ajeitou o cabelo loiro com um gesto lento, empinando o peito de leve, como se aquilo fosse resolver alguma coisa.

“Não precisa de tanta formalidade, Cássio. Pode me chamar de Júlia. Já te falei isso.”

Eu parei a uns dois metros dela, mãos nos bolsos da calça. Não sorri de volta.

“Você desrespeitou minha namorada e minha filha.”

Os olhos dela se arregalaram. O sorriso congelou.

“Namorada?”

“Sim. Namorada.” E, como eu pensei, foi só nisso que ela pensou. Ela agora ignorava a existência de Aelyn.

Ela piscou rápido, como se tentasse recalcular o mundo inteiro em dois segundos.

Eu continuei, voz baixa, mas cortante:

“Ela sabe mais do que você sobre os gostos da minha filha. Está com ela o tempo todo. Sabe quando deve deixá-la escolher e quando segurar a impulsividade. Não gostei da forma como você a tratou desde que chegou aqui. Acho que está confundindo as coisas, senhorita.”

Ela deu um passo à frente, tentando recuperar o controle, voz mais baixa, quase melosa:

“Eu achei que… achei que ela fosse a babá da sua filha.”

“Achou errado. Deveria ter sido mais cordial. Ela é minha futura esposa. E, pelo visto, você acaba de ser descartada como arquiteta.”

Ela cambaleou para trás, literalmente. A mão foi ao peito como se eu tivesse dado um soco.

“Não… não… foi um mal-entendido. Eu… senhor Ravelli, eu trabalho para o senhor há muito tempo. Nunca tivemos esse problema. Acho que se eu for lá e conversar com a sua na… namorada, ela vai entender que foi um erro.”

Eu ri de lado. Um riso curto, sem humor.

“Sua personalidade já deixou claro o que você acha. Não queremos mais o seu serviço, vou pagar pelo seu tempo, mas não precisa fazer mais nada. Não temos mais interesse. Por favor, se retire da minha casa.”

Virei as costas. Não esperei resposta. Não precisava. Subi as escadas de volta, o som dos meus passos ecoando no corredor vazio. O peito estava leve, aliviado por ter colocado um ponto final naquela palhaçada. Mas quando cheguei na porta do quarto da Aelyn, parei.

Vazio.

A luminária de nuvem ainda estava na caixa aberta no chão, o unicórnio de pelúcia jogado no tapete, mas elas não estavam lá.

“Branca? Aelyn?”

Chamei, voz normal no início. Nada.

Entrei no quarto, olhei em volta. A porta do closet entreaberta, mas sem movimento. O banheiro pequeno ao lado, vazio também.

“Branca!”

A voz saiu mais alta dessa vez. O coração acelerou um pouco. Não era pânico ainda, mas uma inquietação que eu conhecia bem. A casa era grande, mas não tanto. Elas não podiam ter sumido.

Desci o corredor chamando de novo.

“Aelyn! Branca!”

Silêncio.

Passei pelo quarto principal, o meu, o nosso agora. Vazio. A sala de cima, onde às vezes Aelyn pedia para brincar, nada.

O peito apertou mais forte. Jonathan ainda estava solto. Os seguranças estavam na casa, mas e se…? Não. Não ia pensar nisso. Não agora.

Desci as escadas correndo, dois degraus de cada vez.

“Branca!”

Chamei mais alto, o eco voltando vazio.

101. Decisão 1

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