Branca
Eu não esperava que a loja me abalasse tanto. Achei que ia ser só uma tarde leve, divertida, comprando coisas fofas para o quarto da Aelyn. Ri das corridas dela, negociei com ela sobre quantos unicórnios de pelúcia eram “demais”, segurei a mão do Cássio enquanto empurrávamos o carrinho lotado. Mas quando parei na frente daquele berço branco… algo dentro de mim quebrou. Não foi uma rachadura dramática, foi silenciosa, profunda. Já fazia quase 3 meses que meu filho tinha partido e a dor parecia nunca ter fim.
Preferi não pensar. Sorri para a Aelyn quando ela disse que queria um irmãozinho, abracei ela forte, deixei o Cássio me puxar para perto e murmurar “um dia”. Guardei o aperto no peito como quem guarda um segredo ruim, e segui em frente. Porque ali, com eles, eu não queria ser a pessoa quebrada. Queria ser a que ri, a que ajuda a escolher luminárias de nuvem.
Chegamos em casa com o carro abarrotado. Os seguranças descarregaram as caixas grandes enquanto Aelyn pulava de empolgação na calçada. Eu carregava só as sacolas leves, Cássio insistia que eu não levantasse nada pesado ainda, e quando entramos na sala, lá estava ela: a arquiteta.
Alta, magra, cabelo loiro perfeito em um coque baixo, terninho cinza impecável. Ela sorriu para o Cássio como se os dois se conhecessem há anos e talvez se conhecessem mesmo, sei lá. Foi direto nele, beijou o rosto dele com um “oi, Cássio, que saudade” que soou meloso demais para o meu gosto. Ele retribuiu com um aceno educado, mas eu senti um frio na barriga. Não era ciúme exatamente. Era… desconforto. Como se eu estivesse invadindo um espaço que ainda não era meu de verdade.
Ela se abaixou para falar com Aelyn, voz doce:
“Oi, princesinha! Pronta pra deixar o quarto lindo?”
Aelyn sorriu, mas não respondeu. A mulher nem olhou para mim. Nem um “oi”, nem um aceno. Como se eu fosse parte da mobília.
Cássio pigarreou.
“Vamos te mostrar o espaço. Já compramos os móveis hoje, então só precisamos decidir a cor das paredes, o papel de parede, essas coisas.”
Aelyn gritou animada:
“Eu vou escolher!”
Eu pensei em ficar para trás. Deixar eles irem. Cássio parecia não ter percebido nada ou talvez não quisesse ver. Mas Aelyn correu até mim, pegou minha mão e puxou com força.
“Vamos, tia Branca! Você tem que me ajudar! Eu não sei escolher sozinha!”
Não dava pra recusar. Subimos as escadas juntos, Aelyn na frente, eu e Cássio atrás. Quando entramos no quarto, entendi por que ela estava tão animada para mudar tudo. Era um quarto de bebê. Paredes bege clarinho, móveis antigos de quando ela era menor, ursinhos desbotados nas prateleiras, cortinas com nuvens fofas que já não combinavam com a menina de seis anos que corria e gritava sobre unicórnios. Era fofo, mas congelado no tempo. Ela queria crescer ali dentro, mas do jeito dela.
A arquiteta começou a falar com Cássio, apontando para o tablet:
“Eu pensei em algo mais clean, moderno. Tons de roxo com dourado, um toque sofisticado. Ela já tá crescendo, né? Logo vai querer algo mais maduro…”
Antes que Cássio respondesse, o celular dele tocou. Ele pediu licença e saiu para o corredor.
A mulher continuou, como se nada tivesse acontecido:
“Se colocar tudo roxo com alguns tons dourados e…”
“Não!” Aelyn gritou alto, sonoro, quase um berro. “Meu quarto é de unicórnios! Branco com decoração em cima e rosa em baixo. Assim!”
Ela apontou para o tablet que a arquiteta tinha deixado sobre a mesinha no meio do quarto. Tinha uma maquete pronta: paredes roxas, detalhes dourados, tudo muito chique, muito sem graça, muito… adulto.
A arquiteta franziu a testa.
“Mas isso é muito infantil, querida. Logo você vai querer mudar para algo mais…”
Eu não aguentei.
“Ela é criança. Tem só seis anos. É o mais adequado.”
A mulher virou para mim, o olhar afiado como faca.
“Não se intrometa, babá. Eu sou a profissional aqui e sei o que é melhor.”
Babá.
A palavra acertou como tapa. Mordi a boca com força, sentindo o gosto de sangue.
“Não, você não sabe. Pelo visto você não é mãe e muito menos profissional. Se a Aelyn diz que quer desse jeito, é assim que vai ser. De acordo com a idade dela.”
Ela me olhou furiosa, o rosto vermelho.
“Seu patrão vai saber sobre isso.”
Eu sorri, fria.


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