"Júlia"
Entrei no carro com certo receio e o coração disparado. Era um carro comum, um sedã preto de vidros escuros. Lá dentro, havia um cheiro agradável, e tudo parecia bem organizado. Quando Nicole entrou, acendeu a luz interna, e pude vê-la um pouco mais de perto, era jovem, mais do que eu imaginava.
Ela se ajeitou, ligou o motor e arrancou com uma calma quase irritante, como se nada tivesse acontecido nos últimos minutos.
Eu, por outro lado, percebi que sentia as mãos tremendo. Agora dentro do carro, tentava compreender o que tinha acontecido. Apertei a bolsa contra o colo, o canivete ainda ali dentro, ao alcance dos meus dedos.
— Obrigada — falei, finalmente, a voz um pouco rouca.
Ela apenas assentiu, os olhos fixos na rua, parecia ainda mais impenetrável. O maxilar firme, os olhos atentos, as mãos seguras no volante.
Pensando bem, não parecia uma acompanhante da Red Roses, mas podia estar enganada, com uma roupa certa e a maquiagem ideal, qualquer um viraria outra pessoa.
— Você estava me seguindo? — perguntei, virando o rosto para encará-la. Apesar de agradecida, era estranho o momento que ela apareceu.
— Se eu estivesse te seguindo, você nem teria percebido. Mas a resposta é não, passei com o carro e te vi, achei que precisava de ajuda.
— Tentei usar o canivete, mas acho que preciso treinar essa parte. Nunca tinha acontecido uma coisa assim antes, e olha que esse é o meu horário de trabalho.
Ela demorou alguns segundos para responder.
— A ideia do desodorante foi esperta, mas o de pimenta é melhor, arde mais. Achei que uma dançarina como você tivesse essas coisas.
— Eu sei que existe perigo, fico alerta, não sou tão idiota assim, mas como disse nada nunca tinha acontecido antes. Espera um pouco... você estava na Red?
— Eu assisti a sua apresentação, mas já estava indo embora.
Então ela era acompanhante mesmo.
— Não, eu não sou acompanhante de luxo — Ela falou como se ouvisse meus pensamentos — Trabalho na cozinha e sou garçonete.
Fiquei um momento em silêncio. Nicole não parecia uma mentirosa; tinha acabado de me salvar. Resolvi dar a ela o benefício da dúvida.
— O que você viu lá em cima? — Ela perguntou depois de um tempo.
Meu corpo enrijeceu, senti as mãos ficarem geladas e coração voltar a disparar.
— Não sei do que você está falando.
Ela soltou um riso baixo.
— Você mente mal.
Apertei ainda mais a bolsa, pronta para usar o canivete, dessa vez de verdade.
— E você faz umas perguntas estranhas para alguém que acabou de me conhecer.
— Acabei de te salvar, mas eu ouvi um pedaço da conversa quando me aproximava. Conheço bem os camarotes, quem são os frequentadores de lá.
O silêncio caiu pesado entre nós, meu instinto dizia que era melhor correr.
— Muito obrigada por tudo, mas pode me deixar na próxima esquina, por favor. — falei, firme.
Nicole não respondeu de imediato. O carro diminuiu a velocidade ao parar em um sinal vermelho.
— Vou te deixar em casa, não no meio da rua a essa hora. Não precisa ter medo, eu trabalho há alguns meses na Red Rose, é a primeira vez que te vejo por lá, então fiquei curiosa, não estou envolvida com nada, apenas faço comida ruim parecendo gourmet.
— Você trabalhava na Lush? Conhece o dono de lá? — ela perguntou de repente.
Fiquei um momento sem saber o que responder. Nicole deve ter deduzido que eu trabalhava na Lush; afinal, era o único lugar que tinha pegado fogo nos últimos dias.
— De vista só, nunca conversamos.
— Vai parecer estranho o que vou pedir, mas não posso deixar isso passar. Eu preciso falar com ele, por um momento, coisa de cinco minutos.
Encarei Nicole sem acreditar muito bem no pedido. O que aquela mulher desconhecida poderia querer com César?
— Não sei…
Ela respirou fundo antes de continuar.
— Eu sei que foi esquisito eu aparecer assim, mas juro que foi tudo uma grande coincidência. Acho que você ter trabalhado na Lush é o destino me dando um sinal. Estou procurando uma pessoa, e talvez César possa me ajudar.
Ela pegou uma bolsa atrás do banco, tirou um papel e uma caneta e anotou um telefone.
— É o meu número. Se você passar para ele, eu vou ficar agradecida, mas vou entender se não fizer.
Peguei o papel, sem acreditar em como a noite tinha escalado para aquela conversa.
— Eu vou ver… obrigada, preciso ir.
Saí do carro e entrei correndo em casa. A noite tinha se transformado em uma cena de filme que eu ainda não conseguia acreditar que tinha vivido.
Era tanta coisa que o melhor seria falar pessoalmente com Camila. Não consegui dormir direito e, logo cedo, avisei que estava a caminho da casa dela.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com um cafajeste para me vingar do ex-marido
Paguei pelo capítulo 301 e ele sumiu...
Não estou entendendo.. Por que um capítulo liberado outro bloqueado?? 😩😩😩...
Gostando bora ver como será...
Alguém tem o capítulo de 27 pra frente?...
3 dias e sem um capítulo novo. Frustante....
Ta demorando muito,um capítulo so por dia é extremamente pouco, da vontade de largar....
Até o capítulo 142, pularam alguns capítulos, agora vai p o 224...
Perfeito!...